Seja Bem Vindo!

Anúncio CBU

Mostrando postagens com marcador Teologia e História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teologia e História. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Quem dizes que sou? Perspectivas sobre Jesus Cristo no decorrer da história

Os evangelhos informam que desde o ministério terreno de Jesus houve dúvidas quanto à sua verdadeira identidade. No texto da confissão de Pedro, em resposta à pergunta de Jesus sobre quem o povo dizia ser ele, os discípulos responderam: João Batista, Elias, Jeremias ou “algum dos profetas” (Mt 16.14). Quando Jesus indagou a opinião dos seus próprios seguidores, Pedro deu a resposta correta (“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”), mas uma leitura mais ampla dos sinóticos mostra que os apóstolos ainda assim tinham muitas perplexidades acerca de verdadeira natureza do seu mestre. Fora do círculo mais estreito em torno de Jesus, as dúvidas podiam se tornar especialmente intensas. João Batista, o primo e precursor de Jesus, fez a dolorosa pergunta: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?” (Mt 11.3). Ao longo dos evangelhos ressoa a exclamação das multidões e dos líderes religiosos judeus: “Quem é este...?” (Mt 8.27; Lc 5.21; 7.49; Jo 1.19; 8.25).

A principal razão dessas dúvidas era a própria complexidade da pessoa de Jesus, em muitos aspectos tão intensamente humano, porém ao mesmo tempo marcado por características, atributos e feitos singulares, extraordinários. Os seus títulos, demonstrações de autoridade e afirmações ousadas sobre si mesmo deixavam os seus interlocutores aturdidos, admirados ou simplesmente chocados e irados. Adicionalmente, havia um elemento de mistério em torno daquela pessoa, de segredo acerca da sua verdadeira identidade, tema esse que é destacado nos evangelhos. O chamado “segredo messiânico” reforça a idéia de que Jesus ao mesmo tempo se oculta e se revela. Somente aqueles que crêem, que se identificam com ele, podem conhecer realmente quem ele é. Após a ressurreição os discípulos se tornam mais seguros a respeito de Jesus (Jo 21.12), o que não impede que, com o passar do tempo, surjam novos questionamentos.

1. O humano e o divino
A resposta de Pedro, conhecida como a “Grande Confissão”, foi muito importante, mas não respondeu todas as dúvidas. O que realmente significava dizer que Jesus era o “Cristo” (Messias) e o “Filho de Deus”? Quais as implicações mais profundas dessas afirmações? Essas questões ocuparam a mente dos cristãos por vários séculos e as tentativas de solução giraram em torno de dois pólos: a humanidade e a divindade de Jesus. Num primeiro momento, a preocupação em resguardar o monoteísmo fez com que muitos cristãos tivessem reservas quanto à divindade de Cristo. Nunca se pos em dúvida a importância, a dignidade e a singularidade de Jesus; afinal, desde o início os cristãos sabiam ter uma relação especial com ele, tinham sido batizados em seu nome e o confessavam como Senhor. Todavia, muitos sentiam que aceitar a sua divindade implicava em dissolver a unidade de Deus, em admitir a existência de dois deuses, o Pai e o Filho.

Essa preocupação em preservar o monoteísmo em prejuízo do reconhecimento do caráter divino de Cristo ficou conhecida na história como “monarquianismo”. Este por sua vez dividiu-se em duas correntes principais: o monarquianismo dinâmico ou adocianismo dizia que Jesus foi um ser humano que Deus adotou como filho por ocasião do seu batismo, quando ele foi revestido do poder (“dynamis”) do Espírito Santo. Os ebionitas, isto é, os cristãos hebreus que pouco antes da destruição de Jerusalém se transferiram para o outro lado do rio Jordão, foram adocianistas. Já o monarquianismo modalista entendia que Pai, Filho e Espírito Santo eram manifestações sucessivas, e não simultâneas, de Deus. Essa corrente não fazia distinções no Ser Divino, chegando alguns a ponto de dizer que o Pai sofreu e morreu na cruz, posição essa conhecida como patripassianismo.


Simultaneamente ao monarquianismo, e mesmo antes dele, surgiu uma espécie muito diferente de questionamento, motivada por pressupostos bastante distintos. Influenciados pela cultura e filosofia grega, os gnósticos afirmavam a maldade inerente da matéria e, por conseguinte, não podiam admitir o conceito de encarnação. Sua tendência era dar ênfase ao caráter divino do Verbo (Logos), em detrimento da sua humanidade. Aquele Jesus com o qual os discípulos se relacionaram tinha apenas uma aparência de humanidade, era como que um fantasma, um ser etéreo que viveu entre eles. Daí terem ficado conhecidos como docetistas (do verbo grego dokéo = “parecer”). Essa posição já é claramente combatida nas epístolas joaninas do Novo Testamento (1 Jo 4.2,3; 2 Jo 7), e um grande número de textos afirma de modo enfático um entendimento literal da encarnação (ver Jo 1.14; Rm 1.3; Cl 1.22; 1 Tm 3.16; Hb 5.7; 1 Pe 4.1).

2. A era dos credos
Com o passar do tempo, à medida que o debate se ampliava e aprofundava, surgiram posições mais sofisticadas acerca do assunto. A mais famosa e controvertida foi o arianismo, proposta no início do quarto século pelo presbítero Ário, de Alexandria, no Egito. Essa concepção interpretava de modo muito literal a linguagem bíblica sobre Pai e Filho e sobre o conceito de geração. Ário afirmava que o Pai gerou o Filho, que só então passou a existir, e por meio deste fez o restante da criação. Portanto, Cristo era um ser muito exaltado, mas não divino. Outras posições resultaram das ênfases de duas escolas de interpretação bíblica, a de Alexandria e a de Antioquia, a primeira insistindo na união das duas naturezas e a segunda, em sua separação. Segundo o bispo Apolinário, o Cristo encarnado consistia de um corpo humano dotado de uma razão divina, o Logos. Outro bispo mais famoso, Nestório, insistiu que Jesus Cristo consistia na “união moral” de duas pessoas como em um matrimônio. Finalmente, o monge Eutiques, indo na direção oposta, defendeu a virtual fusão das duas naturezas, resultando em uma só, a divina. Essa posição também ficou conhecida como monofisismo.

Diante de um cenário tão confuso, a igreja sentiu a necessidade de posicionar-se a respeito dessa questão crucial que envolvia o correto entendimento do centro de sua fé: a pessoa de Jesus Cristo. Quatro grandes concílios ecumênicos realizados na Ásia Menor nos séculos quarto e quinto trataram dessa questão (Nicéia, Constantinopla, Éfeso e Calcedônia). A Definição de Calcedônia, do ano 451, resolveu a controvérsia de maneira magistral ao declarar não só a perfeita divindade e a perfeita humanidade de Cristo, mas o fato de que as duas naturezas, ao mesmo tempo distintas e inseparáveis, formam uma só pessoa e subsistência (“união hipostática”). Entendeu-se que essa concepção era não só coerente com o testemunho das Escrituras, mas necessária em virtude de suas implicações soteriológicas. Desde então, esse entendimento tem sido adotado pela maior parte da cristandade.

3. Novas teorias, antigas idéias
Ao longo dos séculos, têm surgido as mais diversas interpretações acerca de Cristo, que geralmente não passam de reedições, com outros nomes, das antigas posições consideradas heterodoxas. De um modo geral, essas posições tendem a minimizar ou simplesmente negar a divindade de Cristo, dando grande ênfase à sua humanidade. Foi o que aconteceu, na época da Reforma, com o espanhol Miguel Serveto e os italianos Lélio e Fausto Socino, que ensinaram formas particulares de adocionismo. Mais tarde, as modernas Testemunhas de Jeová iriam abraçar uma posição muito semelhante à do antigo arianismo.

Os principais reformadores protestantes, Lutero e Calvino, diferiram parcialmente nas suas concepções acerca da natureza humana de Cristo. O primeiro insistiu que, por causa da encarnação, a humanidade de Cristo, inclusive o seu corpo glorificado, recebeu o atributo da ubiqüidade, estando em todos os lugares ao mesmo tempo. Já os calvinistas argumentaram que mesmo agora, após a sua ressurreição e ascensão, o homem Jesus está corporalmente localizado no céu. Isso levou as duas tradições a terem compreensões bastante diferentes da presença de Cristo no sacramento da Ceia. No entanto, por um bom tempo, os protestantes, acompanhando os católicos romanos e os ortodoxos gregos, mantiveram unanimemente a antiga cristologia de Calcedônia.

A partir do iluminismo, com a sua crítica da visão sobrenaturalista da religião, voltaram a ser abraçadas as antigas concepções acerca de Cristo que insistiam na sua humanidade, negando a sua transcendência. O deísmo do século 18 e a teologia liberal protestante do século 19 conceberam Jesus em termos exclusivamente humanos, ainda que dotado de notáveis atributos morais e espirituais. Teólogos influentes como os alemães Schleiermacher e Ritschl propuseram formas elaboradas de adocionismo. Finalmente, no século 20 ganhou força a célebre “busca do Jesus histórico”, que procurou fazer uma distinção radical entre o Jesus concreto de carne e osso que viveu na Palestina e o Cristo da fé imaginado e idealizado pela igreja primitiva. Uma concepção especialmente revolucionária foi proposta por Rudolf Bultmann, um exegeta e teólogo alemão que pretendeu desmitologizar ou desmitificar o Jesus dos evangelhos, desvestindo-o de sua roupagem miraculosa e interpretando a sua pessoa e missão em termos do pensamento existencialista.

4. Perspectivas de Cristo
Ao lado das perenes controvérsias em torno da humanidade e divindade do Redentor, diferentes épocas e diferentes movimentos da história da igreja têm tido as suas percepções particulares acerca de Cristo. Para os primeiros cristãos ele era o Senhor, por amor de quem eles enfrentaram a ira do Império Romano e o martírio; nas primeiras manifestações da arte cristã, ele é a figura benevolente do Bom Pastor, também representado pelo peixe, a pomba ou o cordeiro. Na igreja imperial da era constantiniana, ele passa a ser visto como o Cristo exaltado e todo-poderoso, o pantokrátor (“governante de tudo”). Mais tarde, na segunda metade da Idade Média, dá-se ênfase ao Cristo sofredor, o “varão de dores” dos místicos e visionários.

Ao longo do tempo, os cristãos têm encontrado dificuldade em manter um equilíbrio saudável entre as dimensões sobrenatural e humana de Cristo. Na espiritualidade do tipo pietista, marcada pelo individualismo e pelo misticismo, predomina uma concepção docética de Cristo. A sua humanidade fica obscurecida, dando-se toda a ênfase ao Senhor poderoso e transcendente, operador de maravilhas e solucionador de problemas, que está prestes a voltar em glória para arrebatar a sua igreja. Do outro lado, existe o Cristo predominantemente humano do liberalismo, tanto católico quanto protestante. Um bom exemplo foi o “evangelho social” do início do século 20, inspirador de um ativismo cristão ilustrado pelo livro Em Seus Passos que Faria Jesus? Essa também foi uma ênfase da “teologia da libertação” latino-americana da segunda metade do século 20, que viu na figura de Jesus de Nazaré um modelo a ser seguido na luta contra a injustiça e a opressão.

Essas duas perspectivas padecem de limitações. A primeira, de tendência docética, pode levar, e com freqüência leva, a uma atitude de alienação e escapismo em relação aos problemas do mundo e da sociedade. É característica de boa parcela do evangelicalismo conservador e entusiástico. A outra perspectiva é igualmente reducionista, limitando a aplicação dos ricos conceitos bíblicos de libertação e reconciliação ao plano social e político. O reino de Deus passa a ser visto exclusivamente em termos terrenos, de transformação das estruturas mediante a ação humana, e Cristo torna-se um mero símbolo e um exemplo a ser seguido nesse esforço. O ideal é que os cristãos, em sua reflexão e em sua práxis, recuperem a visão bíblica holística de Jesus Cristo, como aquele cuja obra libertadora e reconciliadora abrange todas as dimensões da existência.

Perguntas para reflexão:
1. Os cristãos antigos tinham um grande interesse pela teologia e por definições precisas. Isso é necessário e saudável hoje? Por quê?

2. Quais as conseqüências que as diferentes posições sobre a pessoa de Cristo têm para o entendimento da salvação, da vida cristã e da missão da igreja?

3. Como podemos entender a co-existência de duas naturezas radicalmente diferentes (divina e humana) na pessoa do Cristo encarnado?

4. Qual o problema de se ter uma posição muito individual e subjetiva a respeito da pessoa de Cristo? Como isso pode ser evitado?

5. Por que é importante que os cristãos confessem tanto a divindade quanto a humanidade de Jesus?

Sugestões bibliográficas:
GONZÁLEZ, Justo L. Uma história do pensamento cristão. Vol. I. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
LANE, Tony. Pensamento cristão. 2 vols. 2ª ed. São Paulo: Abba Press, 2000.
MACLEOD, Donald. A pessoa de Cristo. Série Teologia Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2005.
OLSON, Roger. A controvérsia a respeito da Trindade e O conflito sobre a pessoa de Cristo. Em História da teologia cristã: 2000 anos de tradição e reformas. São Paulo: Editora Vida, 2001.
OLSON, Roger. Jesus Cristo: Deus e homem. Em História das controvérsias na teologia cristã: 2000 anos de unidade e diversidade. São Paulo: Editora Vida, 2004.
STROBEL, Lee. Em defesa de Cristo. São Paulo: Vida, 1998.
Leia mais...

Visões de Jesus Cristo: teologia e arte atravéz da história

Os primeiros cristãos herdaram dos judeus uma grande hesitação em fazer representações materiais das realidades transcendentes. É verdade que o templo de Jerusalém era rico em suas preocupações estéticas e em seu conteúdo artístico. Nele foram utilizados os melhores e mais preciosos materiais disponíveis na época: madeiras, tecidos e metais nobres. Havia também belíssimas representações de elementos da natureza, tais como flores, frutos e animais. O Primeiro Livro dos Reis menciona entre os elementos decorativos do templo, colocíntidas, flores abertas, palmeiras, romãs, lírios, leões, bois e até mesmo querubins (6.18,23,29,32; 7.20,22,24-26,29,36,42). Todavia, quando se tratava do Ser Divino, eram vedadas todas e quaisquer representações materiais (Êx 20.4-5; Lv 26.1; Dt 4.15-18). Essas proibições foram observadas de modo particularmente rigoroso após a Diáspora e influenciaram a igreja primitiva, que se caracterizava por um culto simples e uma liturgia despojada, quase inteiramente isenta de símbolos materiais.

Nos primeiros séculos do cristianismo, a pobreza da maior parte dos cristãos, a situação de marginalidade do novo movimento e as limitações impostas pela sociedade e pelo estado foram alguns fatores, entre outros, que inibiram manifestações significativas de arte sacra especificamente cristã. Todavia, apesar das restrições bíblicas apontadas acima, faziam parte das convicções desses cristãos alguns elementos que no devido tempo iriam frutificar em ricas e variadas expressões artísticas. Um desses elementos era a doutrina da criação, o entendimento de que o mundo físico, com toda a sua beleza e complexidade, era obra das mãos de Deus e refletia os seus atributos de poder, sabedoria e bondade. Em particular, as Escrituras davam ênfase ao ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, e ao corpo humano, transformado em morada do Deus encarnado e redimido para uma vida de comunhão com o Criador. Além disso, a Bíblia estava repleta de histórias, milagres e símbolos vívidos que apelavam fortemente à imaginação e à sensibilidade, e mais cedo ou mais tarde encontrariam expressão em muitas formas visuais e artísticas.

1. Cristo no imaginário da igreja primitiva
A centralidade da pessoa de Jesus Cristo para a nova fé fez com que os cristãos desde uma época remota se defrontassem com a propriedade ou não de representá-lo visualmente. A realidade concreta e poderosa da encarnação legitimou para muitos cristãos a representação visual da pessoa do Redentor.

Inicialmente, essas representações foram apenas simbólicas e não tinham pretensões artísticas deliberadas. Tratava-se de desenhos simples, às vezes até rudimentares, na forma de afrescos e mosaicos feitos em residências particulares ou em catacumbas. Jesus Cristo podia ser representado visualmente por um peixe, por uma âncora ou pelas letras gregas “alfa” e “ômega”. O peixe era um símbolo especialmente atraente, não só em função das histórias dos evangelhos, mas porque a palavra equivalente em grego (ichthus) formava o acróstico de uma vibrante declaração de fé: “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”.

Com o passar do tempo, surgiram representações humanas mais explícitas, sendo que um dos temas mais freqüentes era a figura do Bom Pastor, sob a influência do Evangelho de João, capítulo 10. Curiosamente, até o início do quarto século praticamente não ocorreram representações artísticas da cruz e da crucificação. Os primeiros cristãos pareciam pouco inclinados a destacar visualmente a morte servil e degradante imposta ao seu Senhor, preferindo conceber a salvação nos termos suaves da amizade com Cristo, o Bom Pastor. Um belo exemplo pode ser encontrado num afresco da catacumba de Marcelino e Pedro, martirizados em Roma durante a perseguição movida pelo imperador Diocleciano (303-305).

2. O triunfalismo da igreja imperial
A partir do imperador Constantino (313), o cristianismo começou a influenciar diretamente a arte ocidental, em todas as suas expressões. O crescente poderio da igreja passou a ser traduzido em manifestações artísticas cada vez mais ricas e sofisticadas. Se nos primeiros séculos predominaram os temas da filantropia e da amizade com Cristo representados pela figura do Bom Pastor, a partir da união da igreja com o estado romano entrou em cena uma temática que pode ser designada como triunfal e gloriosa. Cristo passou a ser representado como o Senhor glorioso e o Juiz eterno que reina supremo à destra de Deus. Um exemplo sugestivo é uma pintura da catacumba de Comodila, ao sul de Roma, datada do quarto século, em que Cristo, tendo a cabeça circundada por um halo, está ladeado pelo alfa e o ômega, o princípio e o fim, simbolizando o seu poder eterno.

As controvérsias trinitárias e cristológicas do quarto e do quinto séculos, nas quais Jesus Cristo foi formalmente definido pelos primeiros concílios ecumênicos como consubstancial com o Pai, bem como plenamente divino e humano, fizeram com que, durante toda a Idade Média, essa ênfase triunfal se acentuasse nas diferentes manifestações da arte sacra. Obviamente, nesse aspecto um dos temas prediletos dos artistas foi a cena da ressurreição, da qual existem exemplos magníficos em muitas partes da Europa e do Oriente Médio. Um deles se encontra na igreja de Cora (hoje uma mesquita), em Constantinopla ou Istambul, em que um mural datado de mais ou menos 1320 mostra o Salvador ressurreto e vitorioso sobre a morte pisoteando os portões despedaçados do hades e ressuscitando Adão e Eva. A Catedral de Monreale, na Sicília, possui na abóbada acima do altar um estupendo mosaico bizantino de Cristo Pantokrátor (“governante de tudo”). Curiosamente, até mesmo algumas representações da crucificação podem ter esse tom triunfal, visto simbolizarem a vitória de Cristo sobre Satanás e o pecado.

Mesmo depois que as representações materiais de Cristo já estavam bem estabelecidas na arte sacra cristã, persistiram dúvidas na mente de muitas pessoas quando à propriedade das imagens do mesmo. Entre o final do século sétimo e meados do século nono, ocorreu no Império Bizantino (o império romano oriental ou grego) o célebre “movimento iconoclasta”, em que vários imperadores se opuseram tenazmente à veneração dessas imagens, considerando-a uma forma de idolatria. Isso resultou em grande parte de pressões externas: as imagens eram obstáculos na controvérsia com os monofisitas (que se concentravam na natureza divina de Cristo), com os maniqueístas (que consideravam má toda a matéria) e com os muçulmanos (que rejeitavam representações da forma humana). Depois de um conflito longo e por vezes violento, chegou-se a uma solução intermediária: seriam admissíveis somente quadros ou pinturas de Cristo, de Maria e dos santos (ícones), e não estátuas dos mesmos. A justificativa para tanto foi a encarnação – visto que Deus se tornou humano em Jesus Cristo, ele assumiu todas as características humanas, inclusive a visibilidade. Os ícones da igreja ortodoxa estão entre as mais belas manifestações da arte religiosa cristã.


3. Idade Média e Renascimento
A arte do Ocidente medieval foi a expressão de um sistema coerente de valores e de uma visão cristã da vida. Seu objetivo era indicar as realidades espirituais subjacentes ao mundo material e para isso os artistas da época utilizaram amplamente o simbolismo e a alegoria. Foi criado um sistema sofisticado de símbolos em que, por exemplo, o cordeiro representava Cristo. Num período em que muitas pessoas não sabiam ler, essas ricas e variadas representações visuais, repletas de temas e alusões bíblicos, serviam como a Bíblia dos incultos. No final da Idade Média a religião tornou-se mais pessoal e individual, e a arte sacra exprimiu essa mudança de rumo. O Cristo sofredor substituiu o juiz severo. Seu coração traspassado e sangrento tornou-se com maior freqüência um motivo inspirador dos artistas religiosos.


Ao lado dos temas da amizade e do triunfo, surgiu assim um terceiro motivo na arte cristã: a dor e o sofrimento. O alemão Matthias Grünewald pintou em 1515-1516 uma lancinante cena da crucificação para o altar-mor de Isenheim, refletindo a profunda devoção mística do movimento conhecido como “Devoção Moderna”. É interessante que, no século anterior, até mesmo uma cena da ressurreição transmitia uma sensação de dor. Num quadro pintado por Piero Della Francesca por volta de 1462-1464, Cristo ressuscita com sua bandeira de vitória, os soldados dormem a seus pés, as árvores florescem ao fundo, simbolizando a renovação do mundo, mas os olhos tristes e fixos do Senhor refletem toda a memória da dor da crucificação. Os artistas da Renascença criaram uma profusão de primorosas obras de arte relacionadas com Cristo que até hoje encantam e enlevam as pessoas.


4. Reforma e Contra-Reforma
O protestantismo, apesar do seu caráter de contestação do catolicismo e de suas ocasionais tendências iconoclásticas, também apresentou em sua fase inicial extraordinárias manifestações de arte religiosa, que encontraram sua expressão suprema na pintura. Alguns nomes famosos são os dos pintores alemães Albrecht Dürer, Lucas Cranach e Hans Holbein, e dos holandeses Jan Vermeer e Rembrandt van Rijn. É muito conhecido o auto-retrato de Dürer em que ele se identifica com Cristo como o Varão de Dores, porém de uma maneira serena, sem as angústias do imaginário místico medieval. Rembrandt foi o grande artista do discipulado cristão diário, representando a vida de Jesus de um modo que atrai o espectador para uma auto-identificação com o Senhor. Um belo exemplo é o seu “Cristo em Emaús”, cujo tema é o reconhecimento, o encontro face a face entre Cristo e o crente. Com isso, esses artistas davam expressão às suas novas convicções, “pregando” com a sua arte.


A Contra-Reforma, na sua luta pela reafirmação dos valores católicos diante da ameaça protestante, também teve uma exuberante e fecunda manifestação artística que foi o barroco. Esse movimento expressou-se principalmente nos templos com fachadas e interiores elaborados e decorados de maneira jamais vista anteriormente. O triunfalismo da Contra-Reforma é belamente exemplificado pelo quadro “A glorificação do nome de Jesus” (1672-1685), pintado no majestoso teto da igreja de Il Gesù por Baciccia, aluno de Bernini e o último grande pintor barroco de Roma. Todavia, com maior freqüência a arte barroca deu ênfase à exaltação de Maria, a rainha do céu.

Durante os séculos, quer nas catacumbas, nas pequenas capelas ou em grandiosas catedrais, seja em murais, afrescos, mosaicos, vitrais, telas, marfim, metal, tecido ou esculturas, os cristãos tem expressado as suas convicções a respeito de Cristo e a sua devoção a ele. É tão grande a intensidade de sentimentos evocada pelo fundador do cristianismo que até mesmo artistas não-cristãos têm produzido obras religiosas de grande valor estético e apelo místico. Essas manifestações artísticas correspondem a uma grande variedade de motivações, pessoais e sociais, teológicas e culturais, porém, intencionalmente ou não, sempre comunicam, com maior ou menor eficácia, a sublime declaração bíblica de que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14).


Perguntas para reflexão:
1. Por que razões muitos cristãos, especialmente protestantes, têm reservas quanto à arte sacra?

2. Dentro de que parâmetros há um lugar legítimo para a arte como expressão da fé cristã, inclusive as artes plásticas?

3. Por que motivos muitos cristãos hesitam em representar artisticamente a pessoa de Jesus Cristo?

4. Que argumentos teológicos legitimariam as representações visuais de Cristo, quer simbolicamente, quer realisticamente?

5. Existe uma diferença entre representar visualmente Deus Pai e Jesus Cristo? Qual é?


Sugestões bibliográficas:
DOWLEY, Tim (Org.). História do cristianismo: guia ilustrado. Venda Nova, Portugal: Bertrand Editora, 1995.
HORTON, Michael S. O cristão e a cultura. São Paulo: Cultura Cristã, 1998.
SCHAEFFER, Francis. Como viveremos: uma análise das características principais de nossa época em busca de soluções para os problemas desta virada de milênio. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
SEERVELD, C.G. Arte cristã. Em ELWELL, Walter A. (Ed.). Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 1988-1990. Vol. I, p. 120-125.
TUFANO, Douglas. História de Jesus através da arte. 2ª ed. São Paulo: Moderna, 2000.
Leia mais...

A síndrome de Adão – Por que devemos valorizar a história

Freqüentemente nos deparamos com pessoas que não gostam de história. Isso pode ser conseqüência de experiências desagradáveis em sala de aula, da dificuldade em guardar nomes e datas ou simplesmente uma questão de preferência. Certos indivíduos não sentem atração por história, assim como outros não apreciam inglês, química ou matemática.

Porém, uma coisa é não gostar de história como matéria, como área de estudo; outra coisa bem diferente e não gostar da história, ou seja, não valorizar a história, não considerá-la algo importante. Essa é uma tendência muito comum em nossos dias: o desprezo ou indiferença em relação à história, como se fosse algo dispensável, algo que só interessa a estudiosos ou diletantes.

Essa atitude é no mínimo lamentável e no máximo perigosa. Lamentável porque devido a esse desinteresse as pessoas deixam de conhecer muitas coisas valiosas que poderiam enriquecer as suas vidas e dar-lhes maior apreço por tantas realidades que as cercam. Perigosa porque a história é repleta de lições e advertências sobre coisas muito sérias, e quando as pessoas a ignoram, deixam de aprender com ela e correm o risco de repetir os seus erros.

Essa posição negativa em relação à história pode ser descrita como a “síndrome de Adão”. Sendo o primeiro ser humano, Adão não tinha história, não tinha um passado, uma herança social e cultural. Muitas pessoas se comportam como se fossem Adão, como se tudo tivesse começado com elas, como se nenhuma coisa importante tivesse acontecido antes do seu tempo. Esta lição tem o objetivo de mostrar que tal atitude não é saudável, por várias razões importantes.

1. História e identidade
Mesmo que não valorizem a história no sentido amplo, a maior parte dos seres humanos se preocupam com ela num âmbito mais restrito, pessoal. Por exemplo, quase todas as pessoas têm curiosidade em conhecer a sua árvore genealógica, em obter informações sobre a sua família, os seus antepassados. Hoje em dia existem firmas especializadas em fazer esse tipo de pesquisa para os interessados. Com freqüência, os meios de comunicação mostram pais procurando filhos e especialmente filhos procurando pais, buscando preencher lacunas importantes em suas vidas, em sua personalidade.

As pessoas em geral também gostam de relembrar os eventos importantes da sua vida – e mesmo aqueles não tão importantes, mas que as marcaram de algum modo. Essa é uma das razões porque temos álbuns de fotografias, escrevemos diários, contamos “casos” e comemoramos datas especiais. Isso resulta da consciência de que essas coisas são muito nossas e de que, se não as valorizarmos, ninguém mais o fará. Quanto mais idosas as pessoas se tornam, mais importantes se tornam essas recordações e reminiscências – essa história.
Qual a razão desses comportamentos? É o fato de que a história, mesmo que apenas pessoal e familiar, tem a ver com quem nós somos, com a nossa identidade como seres humanos. Quem não conhece a sua história, fica privado dos seus referenciais, das suas raízes. Por isso é tão triste a situação de indivíduos que, por causa de um acidente, trauma ou doença, perdem a memória e não sabem mais quem são. Em outros casos, um incêndio, inundação ou sinistro semelhante pode destruir documentos e objetos que marcaram a trajetória de uma vida, de uma família, com grande perda para a auto-imagem das pessoas envolvidas.

É por esse motivo que, de acordo com a legislação brasileira, existem certos bens muito pessoais que nunca podem ser retirados de alguém a título de pagamento de dívida, como é o caso de cartas, fotos e outros objetos de valor afetivo. Essas coisas têm um significado para essas pessoas que não pode ser avaliado economicamente, por serem parte da sua trajetória de vida.

O que muitas pessoas deixam de perceber é que não só os eventos da nossa vida pessoal contribuem para a nossa identidade, mas também os acontecimentos mais amplos da sociedade e do mundo ao nosso redor. Não só os indivíduos e famílias têm uma identidade, mas os grupos, a coletividade e nações inteiras. Talvez seja essa uma das principais causas da crise de identidade que vive o Brasil contemporâneo – a incapacidade de encarar de frente a nossa história e aprender com os seus acertos e desacertos.

Uma apreciação da nossa história irá nos ajudar a entender os aspectos positivos do nosso patrimônio cultural. Por um lado, iremos saber de onde veio a mistura de raças, o jeito alegre de ser, a musicalidade, o folclore, a riqueza do idioma e da literatura, a afetividade e tantas outras características positivas do nosso caráter nacional. Por outro lado, compreenderemos melhor como surgiram o individualismo, o desprezo pela lei, a corrupção na vida pública e as desigualdades sociais que tanto nos envergonham e prejudicam. Compreendendo os mecanismos que deram origem a esses problemas, estaremos mais capacitados para corrigi-los.

2. Uma fé histórica
Os cristãos têm fortíssimas razões adicionais para valorizar a história – razões de natureza bíblica e teológica. A Escritura nos mostra que o povo de Deus, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, tem uma profunda ligação com a história. Mais ainda: Deus e a sua salvação estão intimamente ligados à história humana.

A fé judaico-cristã afirma que o Ser Divino é ao mesmo tempo transcendente e imanente. Como um Ser transcendente, Deus está acima e além do tempo e do espaço, sendo, portanto, aistórico, ou seja, não sujeito aos condicionamentos da história. Ele é infinito, eterno e imutável, ao contrário de tudo o mais que existe, do universo criado.

Ao mesmo tempo, Deus é imanente, isto é, relaciona-se de perto com a sua criação, atua diretamente no mundo em atividades de revelação, providência e redenção. Como diz o título original de um livro de Francis Schaeffer, “ele está presente e não está calado” (publicado pela Editora Cultura Cristã com o título O Deus que se revela).

Deus se relaciona com a história de duas maneiras principais. Em primeiro lugar, em sua soberania ele dirige a história, ainda que muitas vezes o faça de maneira incompreensível e insondável para nós. O cristianismo tem uma concepção linear da história, como algo que tem um princípio, um meio e um fim. Em cada uma dessas etapas, Deus é o personagem central. O grande teólogo e bispo da antiguidade Agostinho de Hipona foi o primeiro a elaborar uma filosofia cristã da história em sua obra A cidade de Deus, na qual analisa a história do mundo desde a criação até a consumação, à luz da obra da redenção.

Todavia, em um sentido ainda mais rico e sublime, Deus se relaciona com a história entrando ele mesmo, pessoalmente, nessa história através de Jesus Cristo, seu Filho. Por isso a verdade da encarnação é tão importante para os cristãos. Crer na encarnação significa crer que o Deus transcendente e eterno literalmente veio ao mundo e se identificou profundamente com a sua criação, assumindo uma natureza humana integral. Ele o fez com o objetivo de restaurar o seu relacionamento com as suas criaturas. Ninguém expressou isso de modo tão claro e direto quanto o apóstolo Paulo, quando disse: “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo” (2Co 5.19).

A própria Bíblia é um livro de histórias e da grande história. No Antigo Testamento, os judeus foram instruídos a lembrar continuamente os grandes eventos libertadores de Deus, através de cerimônias e festividades, bem como ensiná-los de contínuo a seus filhos (ver Êx 12.11-14,24-27; 13.6-9,14-16; Lv 23.41-43; Dt 6.6-9,20-23). Isso era fundamental para a preservação da sua identidade religiosa e nacional e para que nunca deixassem de ser gratos a Deus por suas bênçãos (ver os Salmos 105 e 136).

Os livros do Novo Testamento foram escritos para que a história de Jesus fosse preservada e compartilhada com as próximas gerações. Nos evangelhos e nas epístolas, os apóstolos revelam a sua convicção de que essas informações eram fundamentais para a fé e a vida dos cristãos (Lc 1.1-4; Jo 20.30-31; 1Co 15.1-4). Jesus quis que o ato central da sua obra redentora recebesse especial atenção e por isso instituiu a ordenança da Ceia, recomendando: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22.19; 1Co 11.24-25).

Ao contrário de muitas religiões, cujas convicções se baseiam em mitos supramundanos e supratemporais, a fé bíblica insiste que os seus grandes atos redentores foram realizados por Deus em eventos históricos concretos com o êxodo, a encarnação, a cruz e a ressurreição. Ora, se a história é tão importante assim para Deus, certamente o deve ser para os seus filhos. Sendo o cristianismo uma religião profundamente histórica, os cristãos, se quiserem ser coerentes com a sua fé, devem valorizar intensamente a história, palco da atuação soberana e graciosa de Deus em ações providenciais e redentoras.

3. O exemplo dos reformadores
Os reformadores protestantes do século 16 se sentiram tentados pela síndrome de Adão. Ao romperem com a sua antiga igreja – por entenderem que ela havia se afastado do ensino das Escrituras em muitos pontos importantes –, eles correram o risco de deixar tudo para trás, inclusive certos elementos válidos e bons que deviam ser preservados.

Alguns grupos protestantes cometeram esse erro, principalmente entre os chamados “radicais”, “fanáticos” ou “espiritualistas” (apelidos dados aos anabatistas extremados). Lutero questionou muitas coisas da igreja medieval, mas manteve determinados elementos doutrinários e litúrgicos da antiga tradição. Ulrico Zuínglio, o reformador de Zurique, na Suíça, foi mais longe que Lutero em sua obra de retorno às Escrituras e reforma da igreja. Por isso, os seus seguidores ficaram conhecidos como “reformados”.

Pois bem, em Zurique, alguns simpatizantes iniciais de Zuínglio chegaram à conclusão de que ele não estava sendo profundo o suficiente em sua obra de reforma, pois ainda mantinha certas práticas “papistas” como o batismo por aspersão e o batismo de crianças. Assim sendo, os anabatistas passaram a atacar Zuínglio e seu trabalho de reforma, dizendo que queriam viver como nos dias do Novo Testamento, conforme se vê no livro de Atos dos Apóstolos.

Zuínglio e depois dele Calvino disseram não a essa atitude. Eles sabiam que o cristianismo e a igreja não haviam começado com eles, mas que eram herdeiros de 1.500 anos de história. Não era possível voltar do século 16 diretamente para o século 1º como se nada tivesse acontecido ao longo desse período. Dizer que entre o final da era apostólica e a Reforma não havia ocorrido nada de bom seria o mesmo que dizer que Deus ficou mais de um milênio sem um povo no mundo, que o Espírito Santo se manteve ausente da igreja, que a promessa de Jesus – “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” – ficou inoperante.

Portanto, ao mesmo tempo em que os reformadores foram implacáveis em condenar e abandonar tudo o que, no seu entender, conflitava com a Palavra de Deus, eles foram sábios o bastante em manter muitos elementos que consideraram não só válidos, mas um patrimônio precioso a ser preservado e cultivado pelos cristãos – nas áreas da reflexão teológica, da interpretação bíblica, da elaboração litúrgica, da pregação, das missões transculturais e assim por diante.

Citemos alguns exemplos concretos no caso da tradição reformada. João Calvino e os seus simpatizantes tinham grande apreço pelas declarações de fé da igreja antiga, como o Credo dos Apóstolos, que é analisado em muitos documentos doutrinários e confessionais da fé reformada. Eles também nutriam grande admiração pelas formulações teológicas sobre Deus, a Trindade e a pessoa de Cristo feitas pelos grandes concílios dos séculos 4º e 5º (Nicéia, Constantinopla, Calcedônia). Além disso, o reformador de Genebra citou abundantemente em seus escritos autores antigos e medievais como Agostinho, João Crisóstomo, Bernardo de Claraval e outros, reconhecendo as suas valiosas contribuições nas áreas da doutrina e da espiritualidade cristã.

Na verdade, o débito dos reformadores para com Agostinho, que viveu no 5º século, é imenso. Em áreas como a antropologia (doutrina do ser humano), soteriologia (salvação) e eclesiologia (igreja) a teologia da Reforma inspirou-se diretamente e profundamente nas reflexões do bispo de Hipona, que viveu muito tempo depois dos apóstolos, mas foi uma testemunha fiel de Cristo em sua geração.

4. O que devemos fazer
As considerações acima nos mostram a importância da história bíblica, da história da igreja e até mesmo da história secular. Portanto, quais devem ser as nossas atitudes diante disso? Em primeiro lugar, precisamos recordar continuamente a história em busca de ensinos relevantes para a nossa vida. Essa é uma ênfase encontrada com freqüência nas páginas da Escritura. A recordação pode ter como objeto episódios negativos, quer na vida pessoal (Dt 24.9; Lc 17.32) ou coletiva (Salmos 78 e 106), servindo assim de solene advertência. Mais comumente, essa recordação é positiva, constituindo-se em motivo de humildade, aprendizado, gratidão e louvor (Dt 8.1-20; 15.15; 16.12; Ef 2.1-7; Tt 3.3-7).

Em segundo lugar, deve-se ter em mente que para recordar a história é preciso conhecê-la. E só podemos conhecer lendo, pesquisando e estudando. Isso se aplica tanto à história bíblica quanto à história da igreja e da sociedade. Atualmente as editoras evangélicas brasileiras disponibilizam uma grande quantidade de obras valiosas nessa área, de autores nacionais e estrangeiros. Essas obras variam no seu grau de complexidade e abrangência, estando ao alcance de pessoas com diferentes graus de instrução.

Em terceiro lugar, é preciso considerar que não se deve conhecer e valorizar a história por um simples saudosismo e apego ao passado. A história pode nos ajudar a viver melhor o presente e a construir um futuro mais promissor. Uma coisa de que nunca se deve esquecer é o fato de que todos nós somos parte do grande fluxo da história e de que continuamos a escrevê-la no presente, com as nossas ações, com a nossa vida, sob a orientação de Deus.

A história nos permite acreditar na capacidade humana para o bem, para a nobreza, para a virtude, mas também nos alerta para não subestimarmos a horrível potencialidade humana para a crueldade e para a vileza, como os acontecimentos hodiernos nos revelam a cada momento. O mesmo século 20 que viu tantas conquistas e realizações notáveis nos campos da arte, da ciência e da tecnologia, também testemunhou a barbárie do genocídio, a loucura do terrorismo e a insensatez da devastação ambiental.

Conclusão
É importante que nessa área, como em todas as outras, nós tenhamos uma cosmovisão ou perspectiva bíblica, cristã e reformada. Sim, porque existem na atualidade as mais diferentes concepções e interpretações da história – evolucionistas, niilistas, marxistas, fatalistas e outras.

Como cristãos, cremos que a história tem um sentido e um propósito. Vivendo num mundo de pecado e alienação, nem sempre podemos discernir esse sentido e propósito em cada evento. Mas confiamos que Deus está no controle último de todas as coisas. Ele nos convida para sermos, não expectadores passivos, mas co-participantes na construção do seu reino de justiça e paz. Como alguém alertou, “para que o mal triunfe, basta que os homens de bem não façam nada”.

Tenhamos uma visão equilibrada da história e do nosso lugar nela. Conforme acentuou Agostinho, no centro da história humana, com suas inquietações e perplexidades, está a cruz de Cristo como sinal de contradição e de esperança. Remidos pelo Senhor, iluminados por seu Espírito e sustentados por sua graça, façamos uso consciencioso das nossas capacidades e recursos, dando assim a nossa contribuição, ainda que modesta, para a prosperidade e o bem-estar da igreja e do mundo.
Leia mais...

Chat CBU




Image and video hosting by TinyPic

Anúncio CBU