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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Mulher virtuosa quem a achará?



Escrevi está mensagem para ministra-la em um congresso do Circulo de Oração, e uma analise Bíblica das ilustres mulheres cristãs, leiam;

Diante de uma sociedade patriarcal hebraica o papel da mulher nunca foi valorizado, elas eram desprezadas e excluídas de diversas atividades na Religião, no âmbito profissional e nos serviços comunitários. Em sua oração matinal os homens de Israel tinham por costume de agradecer a Deus por não terem nascidos mulher e nem gentio. Não importa o quantoeste povo era MAGISTA, Jesus Cristo
ao apresentar-se na passagem Bíblica do evangelho de João capítulo 11, versículo 28, testemunha que Maria irmã de Lazaro escolheu a melhor parte da qual ninguém a tomaria, isto é; Seria uma mulher lembrada, honrada, exemplar, uma mulher com virtudes cristã, Jesus não á desprezou, mais decidiu honrá-la.

Aos olhos de Deus não existe diferença entre ser mulher ou homem, ele não faz acepção de pessoas, ao contrário está em há procurar verdadeiros adoradores e as mulheres tem demonstrador que possuem talento, garra, disciplina e comunhão com Deus.

O sábio Rei Lemuel, um dos escritores do livro de provérbios disse; Mulher virtuosa quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis. Pv.31.10

O sábio Salomão também disse: A casa e os bens são herança dos pais; porém do SENHOR vem a esposa prudente. Pv. 19.14

Algumas características especiais em relação ás mulheres:

· Elas foram as ultimas pessoas a ficarem aos pés da Cruz

· Estavam presente na primeira reunião de oração da igreja primitiva.

· A primeira pessoa convertida na Europa foi uma mulher chamada LIDIA.

· E no dia 08 de Junho de 1911 em marco histórico após seis meses da chegada de Gunnar Vingren e Daniel Berg uma mulher, irmã chamada Celina de Albuquerque foi batizada com Espírito Santo, sendo a pioneira no território Brasileiro.

Que tipo de Mulher você é;

· Como LEIA mulher rejeitada.

· Como AGAR mulher desprezada.

· Como ANA mulher humilhada.

· Como NOEMI mulher desanimada.

· Como Joquebede mulher de fé.

· Como RUTE mulher constante, avivada.

Ser uma mulher virtuosa é;

É viver mil vezes em apenas uma vida.
É lutar por causas perdidas e sempre sair vencedora.
É estar antes do ontem e depois do amanhã.
É desconhecer a palavra recompensa apesar dos seus atos.
É caminhar na dúvida cheia de certezas que Deus é fiel.
É correr atrás das nuvens num dia de sol.
É alcançar o sol num dia de chuva.
É chorar de alegria e muitas vezes sorrir com tristeza.
É acreditar quando ninguém mais acredita.
É cancelar sonhos em prol de terceiros.
É esperar quando ninguém mais espera.
É identificar um sorriso triste e uma lágrima falsa.
É ser enganada, e sempre dar mais uma chance, como fruto do amor de Deus em sua vida.
É cair no fundo do poço, e emergir sem ajuda.
É estar em mil lugares de uma só vez.
É fazer mil papeis ao mesmo tempo.
É ser forte e fingir que é frágil pra ter um carinho.
É se perder em palavras e depois perceber que se encontrou nelas.
É distribuir emoções que nem sempre são captadas.
É comprar, emprestar, alugar, vender sentimentos, mas jamais dever.
É saber dar o perdão…
É tentar recuperar o irrecuperável.
É entender o que ninguém mais conseguiu desvendar.
É estender a mão a quem ainda não pediu.
É doar o que ainda não foi solicitado.
É não ter vergonha de chorar por amor.
É saber a hora certa do fim.
É esperar sempre por um recomeço.
É ser mãe dos seus filhos, dos filhos de outros. É amá-los igualmente.
É ter confiança no amanhã e aceitação pelo ontem.
É desbravar caminhos difíceis em instantes inoportunos.
E fincar a bandeira da conquista tendo sempre fé em Deus, isto é ser; Uma mulher Virtuosa.

JASSON HERCULANO.
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Brasileira de 82 anos passa metade da vida entregando folhetos evangelísticos em grande centro de Nova York


Irmã Moraes encontrou uma maneira de cumprir com o mandato de Jesus de ir por todo o mundo e pregar o evangelho. Nascida no Brasil esta a mais de 40 anos evangelizando no coração de Nova York.

Essa mulher de 84 anos, que guardou de tal forma em seu coração o mandato de anunciar o evangelho, que tem estado pregando nas ruas de Manhattan durante décadas.

Precisamente alí, na Times Square, famosa por suas brilhantes luzes de néon e os espetáculos de Broadway, os pedestres se encontram com Irmã Moraes, que dedicou sua vida à pessoas que caminha tateando, sem conhecer a Jesus.

Por mais de 40 anos, esta anciã distribui folhetos no Grande quarteirão e conversa com as pessoas acerca do amor de Jesus.

Em Obediência
Quando lhe perguntam: “Por que decidiu fazer isto?”, ela responde com doçura: “Deus me disse que o fizesse”.

Irmã Morães nasceu no Brasil, e mora em Nova York desde 1964, e segue melhorando cada dia seu inglês. O idioma nunca foi um impedimento para regressar noite após noite ao coração de Nova York para orar e dar testemunho de Cristo.

Times Square pode parecer um lugar pouco provável para evangelizar a tanta gente que deseja divertir-se, desfrutando das vistas, músicas e espetáculos. Mas irmã Moraes pensa que é o lugar perfeito para dizer às pessoas sobre o Senhor Jesus.

Tanto jovens como adultos se sentem atraídos por seus brilhantes olhos e seu espírito suave, e param para falar com ela. “O mais difícil é o frío. Me faz sentir congelada, então tenho que ir para casa”, admite.

Fonte: O Diário
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Ana Paula Valadão seria um dos motivos da polêmica reportagem da Record contra os pentecostais

Ana Paula Valadão seria um dos motivos da polêmica reportagem da Record contra os pentecostais
Segundo o portal IG a pastora e cantora Ana Paula Valadão seria um dos pivôs principais para o Bispo Edir Macedo ressuscitar a discussão que abriu sobre a doutrina do “cair no Espírito Santo” onde afirma que a prática, adotada por algumas igreja pentecostais, seria realizada devido a possessão demoníaca.

O vídeo exibido no programa Domingo Espetacular do dia 13 de Novembro de 2011 atacou severamente a doutrina e da mesma forma foi atacado por diversos profissionais de jornalismo e evangélicos de diversas de nominações diferentes. A pastora mineira foi várias vezes retratada na matéria que comparou a prática do “cai-cai” ou “cair no espírito santo” às cenas de pessoas supostamente endemoniadas vistas nas “Reuniões de Descarrego” promovidas pela Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo.
O próprio Bispo já havia atacado outras vezes a cantora em seus programas na internet e nas madrugadas da Record utilizando as mesmas acusações.

Ana Paula Valadão e o Diante do Trono, grupo que a cantora lidera, são junto com alguns padres católicos os artistas que mais vendem dentro do braço gospel da gravadora Som Livre, empresa do Grupo Globo que é a principal rival e alvo da grande maioria dos ataques da Record e do Bispo Macedo.

Além disso, a matéria do Esporte Espetacular foi exibida dias antes do programa “Troféu Promessas” da Globo onde Ana Paula Valadão será um dos principais nomes da noite já que com o Diante do Trono foi indicada a cinco categorias pelo recente álbum “Sol de Justiça”, também distribuido pela Som Livre.

O site IG ainda afirma que segundo fontes dentro da emissora de Edir Macedo, os ataques por parte do Bispo e da Record contra as igrejas pentecostais não devem parar.

Nem o Diante do Trono e nem Ana Paula Valadão quiseram se pronunciar sobre o ocorrido.

Fonte: Gospel+
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Em resposta à reportagem do Domingo Espetacular, Pastor Silas Malafaia afirma que Universal investiu R$ 1 bilhão na Record para a glória de satanás


Em resposta à matéria exibida pela TV Record sobre o fenômeno “cair no espírito”, o Pastor Silas Malafaia postou um vídeo no site Verdade Gospel, em que critica “a nova palhaçada do Edir Macedo”.

Silas começa sua fala citando a carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios, quando ele proíbe os irmãos de interagirem “com aqueles que se dizem irmãos mas tem atitudes de ímpios”.

Referindo-se às críticas da reportagem do programa Domingo Espetacular, que veiculou depoimentos de pessoas que disseram ir à reuniões e cultos pentecostais e não terem sentido nada nos momentos do “cair no espírito”, Malafaia afimou: “Quanta gente já fez fogueira santa, corrente dos 318, arruda, e não aconteceu nada? Quanta gente lá na Universal participou de campanhas e nunca aconteceu nada?”

“Não to aqui pra falar mal de igrejas, porque lá na Universal tem gente salva, que teme a Deus”, disse Malafaia, que numa menção aos crentes da Igreja de Beréia, que consultavam as escrituras em cada situação disse que “você não pode engolir o que um líder fala, porque ele não é absoluto”.

O Pastor Silas Malafaia afirmou na sequência que a emissora do Bispo Edir Macedo foi comprada com dinheiro dos fiéis. “A Record foi comprada com dinheiro de dízimos e ofertas. Nos últimos quatro anos a Universal investiu mais de R$ 1 bilhão na Record, para que ela crescesse, fosse grande. Agora me diz: quando foi que você viu na Rede Record, em horário nobre, às 22h00, uma programação para exaltar a Deus?”, questiona Malafaia.

Do ponto de vista do Pastor, a atitude da emissora pode ter sido um tiro no pé dos líderes da IURD: “Eles ridicularizam o movimento pentecostal, mas vão acabar sendo atingidos de tão trouxas que são”.
“O que é que tem nessa TV? Lascívia, homossexualismo, adultério, prostituição, safadeza, roubalheira, mau-caratismo… Esses caras estão loucos!”, esbraveja Silas Malafaia.

Inconformado com a reportagem, ele se dirige aos fiéis da IURD questionando o destino dos dízimos e ofertas: “Como você pode dar dízimos e ofertas num lugar que o dinheiro está sendo usado para fazer uma TV para profanar? Como pode uma igreja ter uma emissora de televisão para a glória de Satanás?
Segundo Malafaia, Edir Macedo tomou essa atitude para evitar que os fiéis da Universal não saiam da denominação. “Ele fez isso porque está desesperado. Tá com medo de perder o povo dele para as igrejas neo-pentecostais. Macedo não é inocente”, encerra o Pastor Silas.

Assista ao vídeo na íntegra:




Fonte: Gospel+
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Reportagem do Domingo Espetacular, da Record, causa revolta ao afirmar que o movimento “cair no espírito” é falsa manifestação do Espírito Santo. Veja o vídeo na integra


 No dia 13/11/2011, o programa Domingo Espetacular da TV Record, apresentou uma reportagem de quase quarenta minutos sobre o movimento pentecostal e as características dos costumes ligados ao “cair no espírito”.

Enquanto a reportagem era exibida pela Record, milhares de fiéis protestavam no Twitter com a hastag #vergonharecord, que chegou a estar entre as mais usadas no microblog em todo o Brasil. Um dos usuários, escreveu: “Incrível! A Globo investindo nos evangélicos e a Record detonando os evangélicos. Quem diria!”

Entendida por diversos internautas que protestavam no Twitter como um ataque ao Pastor Silas Malafaia e à cantora Ana Paula Valadão, defensores do fenômeno, a reportagem mostrou pessoas caindo ao toque de outros, ou ao sopro de pregadores, e ainda fiéis imitando cachorros.

A reportagem ouviu um especialista em psicologia, Doutor Jacob Goldberg, para quem o fenômeno “cair no espírito” é resultado de uma série de fatores: “O movimento de corpo é exasperado, tudo fica vizinho da histeria, e a histeria faz diminuir o senso crítico, o indivíduo não usa mais a razão, ele se entrega”.
Entrevistando Paul Gowdy, um dos precursores do fenômeno cai-cai no mundo, a reportagem mostrou a mudança de opinião dele em relação à crença no movimento. “Assim que Deus abriu meus olhos, vi que precisava tomar uma providência”. Segundo a reportagem, Gowdy afirmou ter participado dos bastidores da fundação do movimento: “Não creio mais nessas coisas. Hoje vejo como uma coisa macabra. Hoje eu acredito que esse espírito é um falso espírito, um espírito enganador”.

O Professor de Teologia da Universidade de Toronto, no Canadá, David Reed afirmou que as ações dos que promovem esse movimento são forçadas: “quando a pessoa não cai, eles empurram”.

Assista à reportagem completa:


Fonte: Gospel+
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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Com quem se casou Caim?

Caim foi o primeiro filho de Adão. Em Gênesis 4.2 encontramos Caim como lavrador, ou seja, já como homem adulto. Então ele matou seu irmão e saiu da face do Senhor (versículo 16), indo habitar na terra de Nodeversículo (evidentemente ela deveria ter este nome quando Moisés escreveu o Gênesis e significa "nômade" ou "errante"). Não nos é dito quanto tempo se passou do versículo 16 até o versículo 17, quando Caim encontra uma esposa. A Bíblia não nos diz e só podemos nos basear em conjecturas. Mas são conjecturas perfeitamente possíveis e nada têm de estranho.

Alguns, que não crêem, procuram usar desta passagem para desacreditar o escrito divino. Em Gênesis 5.3 nos é dito que Adão estava com 130 anos quando gerou Sete, e esta idade deveria ser um pouco mais que a idade de Caim. Lembre‑se que Adão foi criado adulto e deve ter caído em pecado logo após a criação de Eva pois, embora Deus já tivesse ordenado que se multiplicassem (Gênesis 1.28), Adão só conheceu sua mulher após ter sido expulso do Éden (Gênesis 4.1).

Embora a primeira impressão que se tem é que Sete tenha sido o terceiro filho de Adão e Eva, não podemos afirmar isto com certeza, pois a Palavra de Deus geralmente assinala apenas o nome daqueles que têm alguma importância no contexto ou de quem viria uma genealogia. É comum também se omitir o nome das filhas. O fato de, por exemplo, não encontrarmos os nomes dos descendentes dos bisnetos de Caim não significa que não tenham existido. Simplesmente não são citados pois nada tinham a ver com o relato divino.

Porém, supondo que Adão não tenha tido filhos além de Caim e Abel, depois de haver gerado Sete, Adão viveu mais oitocentos anos e "gerou filhos e filhas". Quantos? Não nos é mostrado, mas você pode imaginar. Se um casal brasileiro consegue gerar uma média de 4 filhos, vivendo uma média de 60 anos, o que não faria durante 800 anos, em condições de saúde muito menos prejudicadas pelo pecado do que a que vemos em nossos dias! Junte‑se a isto os filhos de sua descendência e você chegará a números enormes.

Creio que se Caim viveu uns oitocentos anos (que era a média da época), quando estava com uns trezentos anos já podia escolher, entre um bom número de irmãs (Adão e Eva tiveram filhos e filhas) e milhares de sobrinhas e parentes distantes, uma esposa para si. E não somente isto, como também já podia construir uma cidade para abrigar tanta gente, como realmente o fez no capítulo 4.17. Não faria sentido construir uma cidade se não existisse já uma população para ela. Já li um cálculo que foi feito da população da Terra na época do dilúvio, que aconteceu cerca de 1700 anos após a Criação, e é fantástico o número de pessoas que poderiam estar habitando a Terra.

Não há nada de anormal nisso se multiplicarmos a geração de um homem de nossos dias por dez, que seria o equivalente aos oitocentos anos em média que se vivia então. Pela extensão dos anos de vida do homem naquela época, é possível que netos de Caim, ou até mesmo filhos de sua velhice, tenham perecido no dilúvio. O problema maior para entendermos tudo isso reside no fato esquecermos que o tempo de vida de um homem antes do dilúvio era muito maior que hoje. Mas podemos ficar sossegados; Caim teve tempo suficiente para ter várias opções de escolha até tomar uma esposa para si.

Ao contrário do que você pensou, eu não disse que Caim tenha tido filhos com várias mulheres, pois a poligamia só surgiu depois, com o neto de Caim (bisneto de Adão):

Gên 4:19 Lameque tomou para si duas mulheres: o nome duma era Ada, e o nome da outra Zila.

Adão e Eva tiveram filhos e filhas, não diz quantos, mas devem ter sido em número suficiente para ocorrerem casamentos entre eles e daí surgir uma população para o mundo de então.


Gên 5:3 Adão viveu cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e pôs-lhe o nome de Sete.
Gên 5:4 E foram os dias de Adão, depois que gerou a Sete, oitocentos anos; e gerou filhos e filhas.

Para entender a Bíblia é preciso se concentrar no que é dito, não no que não é dito. Quando Deus não informa algumas coisas é porque elas não são importantes para o que Ele está querendo nos ensinar. Quando o professor ensina o aluno a somar dois mais dois ele não explica qual a composição do grafite do lápis ou do papel do caderno, porque isso não iria ajudar em nada o aluno a entender como fazer a conta.

De qualquer modo, a população já era significativa nos tempos de Caim, ou não haveria razão para ele ter construído a primeira cidade que é mencionada na Bíblia:

Gên 4:17 Conheceu Caim a sua mulher, a qual concebeu, e deu à luz a Enoque. Caim edificou uma cidade, e lhe deu o nome do filho, Enoque.
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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Quem dizes que sou? Perspectivas sobre Jesus Cristo no decorrer da história

Os evangelhos informam que desde o ministério terreno de Jesus houve dúvidas quanto à sua verdadeira identidade. No texto da confissão de Pedro, em resposta à pergunta de Jesus sobre quem o povo dizia ser ele, os discípulos responderam: João Batista, Elias, Jeremias ou “algum dos profetas” (Mt 16.14). Quando Jesus indagou a opinião dos seus próprios seguidores, Pedro deu a resposta correta (“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”), mas uma leitura mais ampla dos sinóticos mostra que os apóstolos ainda assim tinham muitas perplexidades acerca de verdadeira natureza do seu mestre. Fora do círculo mais estreito em torno de Jesus, as dúvidas podiam se tornar especialmente intensas. João Batista, o primo e precursor de Jesus, fez a dolorosa pergunta: “És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?” (Mt 11.3). Ao longo dos evangelhos ressoa a exclamação das multidões e dos líderes religiosos judeus: “Quem é este...?” (Mt 8.27; Lc 5.21; 7.49; Jo 1.19; 8.25).

A principal razão dessas dúvidas era a própria complexidade da pessoa de Jesus, em muitos aspectos tão intensamente humano, porém ao mesmo tempo marcado por características, atributos e feitos singulares, extraordinários. Os seus títulos, demonstrações de autoridade e afirmações ousadas sobre si mesmo deixavam os seus interlocutores aturdidos, admirados ou simplesmente chocados e irados. Adicionalmente, havia um elemento de mistério em torno daquela pessoa, de segredo acerca da sua verdadeira identidade, tema esse que é destacado nos evangelhos. O chamado “segredo messiânico” reforça a idéia de que Jesus ao mesmo tempo se oculta e se revela. Somente aqueles que crêem, que se identificam com ele, podem conhecer realmente quem ele é. Após a ressurreição os discípulos se tornam mais seguros a respeito de Jesus (Jo 21.12), o que não impede que, com o passar do tempo, surjam novos questionamentos.

1. O humano e o divino
A resposta de Pedro, conhecida como a “Grande Confissão”, foi muito importante, mas não respondeu todas as dúvidas. O que realmente significava dizer que Jesus era o “Cristo” (Messias) e o “Filho de Deus”? Quais as implicações mais profundas dessas afirmações? Essas questões ocuparam a mente dos cristãos por vários séculos e as tentativas de solução giraram em torno de dois pólos: a humanidade e a divindade de Jesus. Num primeiro momento, a preocupação em resguardar o monoteísmo fez com que muitos cristãos tivessem reservas quanto à divindade de Cristo. Nunca se pos em dúvida a importância, a dignidade e a singularidade de Jesus; afinal, desde o início os cristãos sabiam ter uma relação especial com ele, tinham sido batizados em seu nome e o confessavam como Senhor. Todavia, muitos sentiam que aceitar a sua divindade implicava em dissolver a unidade de Deus, em admitir a existência de dois deuses, o Pai e o Filho.

Essa preocupação em preservar o monoteísmo em prejuízo do reconhecimento do caráter divino de Cristo ficou conhecida na história como “monarquianismo”. Este por sua vez dividiu-se em duas correntes principais: o monarquianismo dinâmico ou adocianismo dizia que Jesus foi um ser humano que Deus adotou como filho por ocasião do seu batismo, quando ele foi revestido do poder (“dynamis”) do Espírito Santo. Os ebionitas, isto é, os cristãos hebreus que pouco antes da destruição de Jerusalém se transferiram para o outro lado do rio Jordão, foram adocianistas. Já o monarquianismo modalista entendia que Pai, Filho e Espírito Santo eram manifestações sucessivas, e não simultâneas, de Deus. Essa corrente não fazia distinções no Ser Divino, chegando alguns a ponto de dizer que o Pai sofreu e morreu na cruz, posição essa conhecida como patripassianismo.


Simultaneamente ao monarquianismo, e mesmo antes dele, surgiu uma espécie muito diferente de questionamento, motivada por pressupostos bastante distintos. Influenciados pela cultura e filosofia grega, os gnósticos afirmavam a maldade inerente da matéria e, por conseguinte, não podiam admitir o conceito de encarnação. Sua tendência era dar ênfase ao caráter divino do Verbo (Logos), em detrimento da sua humanidade. Aquele Jesus com o qual os discípulos se relacionaram tinha apenas uma aparência de humanidade, era como que um fantasma, um ser etéreo que viveu entre eles. Daí terem ficado conhecidos como docetistas (do verbo grego dokéo = “parecer”). Essa posição já é claramente combatida nas epístolas joaninas do Novo Testamento (1 Jo 4.2,3; 2 Jo 7), e um grande número de textos afirma de modo enfático um entendimento literal da encarnação (ver Jo 1.14; Rm 1.3; Cl 1.22; 1 Tm 3.16; Hb 5.7; 1 Pe 4.1).

2. A era dos credos
Com o passar do tempo, à medida que o debate se ampliava e aprofundava, surgiram posições mais sofisticadas acerca do assunto. A mais famosa e controvertida foi o arianismo, proposta no início do quarto século pelo presbítero Ário, de Alexandria, no Egito. Essa concepção interpretava de modo muito literal a linguagem bíblica sobre Pai e Filho e sobre o conceito de geração. Ário afirmava que o Pai gerou o Filho, que só então passou a existir, e por meio deste fez o restante da criação. Portanto, Cristo era um ser muito exaltado, mas não divino. Outras posições resultaram das ênfases de duas escolas de interpretação bíblica, a de Alexandria e a de Antioquia, a primeira insistindo na união das duas naturezas e a segunda, em sua separação. Segundo o bispo Apolinário, o Cristo encarnado consistia de um corpo humano dotado de uma razão divina, o Logos. Outro bispo mais famoso, Nestório, insistiu que Jesus Cristo consistia na “união moral” de duas pessoas como em um matrimônio. Finalmente, o monge Eutiques, indo na direção oposta, defendeu a virtual fusão das duas naturezas, resultando em uma só, a divina. Essa posição também ficou conhecida como monofisismo.

Diante de um cenário tão confuso, a igreja sentiu a necessidade de posicionar-se a respeito dessa questão crucial que envolvia o correto entendimento do centro de sua fé: a pessoa de Jesus Cristo. Quatro grandes concílios ecumênicos realizados na Ásia Menor nos séculos quarto e quinto trataram dessa questão (Nicéia, Constantinopla, Éfeso e Calcedônia). A Definição de Calcedônia, do ano 451, resolveu a controvérsia de maneira magistral ao declarar não só a perfeita divindade e a perfeita humanidade de Cristo, mas o fato de que as duas naturezas, ao mesmo tempo distintas e inseparáveis, formam uma só pessoa e subsistência (“união hipostática”). Entendeu-se que essa concepção era não só coerente com o testemunho das Escrituras, mas necessária em virtude de suas implicações soteriológicas. Desde então, esse entendimento tem sido adotado pela maior parte da cristandade.

3. Novas teorias, antigas idéias
Ao longo dos séculos, têm surgido as mais diversas interpretações acerca de Cristo, que geralmente não passam de reedições, com outros nomes, das antigas posições consideradas heterodoxas. De um modo geral, essas posições tendem a minimizar ou simplesmente negar a divindade de Cristo, dando grande ênfase à sua humanidade. Foi o que aconteceu, na época da Reforma, com o espanhol Miguel Serveto e os italianos Lélio e Fausto Socino, que ensinaram formas particulares de adocionismo. Mais tarde, as modernas Testemunhas de Jeová iriam abraçar uma posição muito semelhante à do antigo arianismo.

Os principais reformadores protestantes, Lutero e Calvino, diferiram parcialmente nas suas concepções acerca da natureza humana de Cristo. O primeiro insistiu que, por causa da encarnação, a humanidade de Cristo, inclusive o seu corpo glorificado, recebeu o atributo da ubiqüidade, estando em todos os lugares ao mesmo tempo. Já os calvinistas argumentaram que mesmo agora, após a sua ressurreição e ascensão, o homem Jesus está corporalmente localizado no céu. Isso levou as duas tradições a terem compreensões bastante diferentes da presença de Cristo no sacramento da Ceia. No entanto, por um bom tempo, os protestantes, acompanhando os católicos romanos e os ortodoxos gregos, mantiveram unanimemente a antiga cristologia de Calcedônia.

A partir do iluminismo, com a sua crítica da visão sobrenaturalista da religião, voltaram a ser abraçadas as antigas concepções acerca de Cristo que insistiam na sua humanidade, negando a sua transcendência. O deísmo do século 18 e a teologia liberal protestante do século 19 conceberam Jesus em termos exclusivamente humanos, ainda que dotado de notáveis atributos morais e espirituais. Teólogos influentes como os alemães Schleiermacher e Ritschl propuseram formas elaboradas de adocionismo. Finalmente, no século 20 ganhou força a célebre “busca do Jesus histórico”, que procurou fazer uma distinção radical entre o Jesus concreto de carne e osso que viveu na Palestina e o Cristo da fé imaginado e idealizado pela igreja primitiva. Uma concepção especialmente revolucionária foi proposta por Rudolf Bultmann, um exegeta e teólogo alemão que pretendeu desmitologizar ou desmitificar o Jesus dos evangelhos, desvestindo-o de sua roupagem miraculosa e interpretando a sua pessoa e missão em termos do pensamento existencialista.

4. Perspectivas de Cristo
Ao lado das perenes controvérsias em torno da humanidade e divindade do Redentor, diferentes épocas e diferentes movimentos da história da igreja têm tido as suas percepções particulares acerca de Cristo. Para os primeiros cristãos ele era o Senhor, por amor de quem eles enfrentaram a ira do Império Romano e o martírio; nas primeiras manifestações da arte cristã, ele é a figura benevolente do Bom Pastor, também representado pelo peixe, a pomba ou o cordeiro. Na igreja imperial da era constantiniana, ele passa a ser visto como o Cristo exaltado e todo-poderoso, o pantokrátor (“governante de tudo”). Mais tarde, na segunda metade da Idade Média, dá-se ênfase ao Cristo sofredor, o “varão de dores” dos místicos e visionários.

Ao longo do tempo, os cristãos têm encontrado dificuldade em manter um equilíbrio saudável entre as dimensões sobrenatural e humana de Cristo. Na espiritualidade do tipo pietista, marcada pelo individualismo e pelo misticismo, predomina uma concepção docética de Cristo. A sua humanidade fica obscurecida, dando-se toda a ênfase ao Senhor poderoso e transcendente, operador de maravilhas e solucionador de problemas, que está prestes a voltar em glória para arrebatar a sua igreja. Do outro lado, existe o Cristo predominantemente humano do liberalismo, tanto católico quanto protestante. Um bom exemplo foi o “evangelho social” do início do século 20, inspirador de um ativismo cristão ilustrado pelo livro Em Seus Passos que Faria Jesus? Essa também foi uma ênfase da “teologia da libertação” latino-americana da segunda metade do século 20, que viu na figura de Jesus de Nazaré um modelo a ser seguido na luta contra a injustiça e a opressão.

Essas duas perspectivas padecem de limitações. A primeira, de tendência docética, pode levar, e com freqüência leva, a uma atitude de alienação e escapismo em relação aos problemas do mundo e da sociedade. É característica de boa parcela do evangelicalismo conservador e entusiástico. A outra perspectiva é igualmente reducionista, limitando a aplicação dos ricos conceitos bíblicos de libertação e reconciliação ao plano social e político. O reino de Deus passa a ser visto exclusivamente em termos terrenos, de transformação das estruturas mediante a ação humana, e Cristo torna-se um mero símbolo e um exemplo a ser seguido nesse esforço. O ideal é que os cristãos, em sua reflexão e em sua práxis, recuperem a visão bíblica holística de Jesus Cristo, como aquele cuja obra libertadora e reconciliadora abrange todas as dimensões da existência.

Perguntas para reflexão:
1. Os cristãos antigos tinham um grande interesse pela teologia e por definições precisas. Isso é necessário e saudável hoje? Por quê?

2. Quais as conseqüências que as diferentes posições sobre a pessoa de Cristo têm para o entendimento da salvação, da vida cristã e da missão da igreja?

3. Como podemos entender a co-existência de duas naturezas radicalmente diferentes (divina e humana) na pessoa do Cristo encarnado?

4. Qual o problema de se ter uma posição muito individual e subjetiva a respeito da pessoa de Cristo? Como isso pode ser evitado?

5. Por que é importante que os cristãos confessem tanto a divindade quanto a humanidade de Jesus?

Sugestões bibliográficas:
GONZÁLEZ, Justo L. Uma história do pensamento cristão. Vol. I. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
LANE, Tony. Pensamento cristão. 2 vols. 2ª ed. São Paulo: Abba Press, 2000.
MACLEOD, Donald. A pessoa de Cristo. Série Teologia Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2005.
OLSON, Roger. A controvérsia a respeito da Trindade e O conflito sobre a pessoa de Cristo. Em História da teologia cristã: 2000 anos de tradição e reformas. São Paulo: Editora Vida, 2001.
OLSON, Roger. Jesus Cristo: Deus e homem. Em História das controvérsias na teologia cristã: 2000 anos de unidade e diversidade. São Paulo: Editora Vida, 2004.
STROBEL, Lee. Em defesa de Cristo. São Paulo: Vida, 1998.
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A homossexualidade no ocidente: uma perspectiva histórica

A homossexualidade é um fenômeno muito antigo, havendo evidências da mesma tanto na arte pré-histórica quanto na pictografia e nos hieróglifos de culturas da antiguidade. A antropologia tem demonstrado a ocorrência desse fenômeno entre muitos povos e culturas passados e presentes. No entanto, a atitude das diferentes sociedades quanto ao comportamento homossexual não tem sido uniforme, indo desde a tolerância e aceitação até a penalização e a tentativa de supressão.

Os antigos hebreus, egípcios e assírios tinham leis contra as práticas homossexuais. A partir do sexto século antes de Cristo, aumentam as referências à homossexualidade na arte e na literatura da Grécia – na poesia de Safo e Anacreon, na prosa de Platão e nas peças de Ésquilo. Isso não significa que os gregos antigos aceitavam pacificamente tal conduta. Aristóteles, Heródoto, Aristófanes e muitos filósofos cínicos e estóicos posteriores expressaram a sua desaprovação moral de tais práticas. A existência da homossexualidade na antiga sociedade romana é atestada nos escritos de Suetônio, nas sátiras de Juvenal e na poesia de Catulo e Marcial. Como na Grécia antiga, a visibilidade desse comportamento não significava que o mesmo era amplamente aceito pela sociedade.

1. Atitudes da Bíblia e dos primeiros cristãos
As referências bíblicas às práticas homossexuais são pouco numerosas, mas bastante enfáticas. O Antigo Testamento condena a sodomia como algo típico da mentalidade pagã e prescreve punições severas (Lv 18.22; 20.13). No Novo Testamento, os escritos paulinos denunciam o comportamento homossexual masculino e feminino como um estilo de vida conflitante com os valores da fé cristã (Rm 1.26-27; ver também 1 Co 6.9-10; 1 Tm 1.9-10). Todavia, só tardiamente surgiu a noção de que as cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas por causa de práticas homossexuais (Gênesis 19). Seu pecado é descrito de outro modo em Ezequiel 16.49-50. A nova interpretação surgiu nos pseudepígrafos, em Filo e em Josefo, e se refletiu no Novo Testamento (Judas 6-7). Teria contribuído para isso a forte hostilidade contra a cultura grega por parte dos judeus ortodoxos daquela época.

As atitudes dos cristãos em relação a esse assunto foram influenciadas tanto pelas afirmações bíblicas quanto pela lei romana. No Império Romano, o homossexualismo aparentemente era punível sob a obscura lex Scantinia (c. 226 AC), mas o interesse jurídico pela matéria data do terceiro século da era cristã. Nos séculos seguintes surgiram novas leis voltadas para essa questão. Um edito de Teodósio, Arcádio e Valentiniano (ano 390) prescrevia a morte na fogueira para os sodomitas. O imperador Justiniano publicou duas novelas contra o homossexualismo em 538 e 544. Elas são importantes porque pela primeira vez se invoca o episódio de Sodoma e Gomorra e porque o seu objetivo não era tanto punir como levar os ofensores ao arrependimento. As penalidades legais eram reservadas somente para os mais obstinados.

2. Da Idade Média à modernidade
Alusões esparsas na literatura e nos cânones cristãos mostram que a igreja antiga considerava o homossexualismo masculino altamente pecaminoso, mas não como algo merecedor de castigo exemplar. As penalidades variavam de uma penitência de nove anos à excomunhão perpétua. Considerações políticas podem explicar algumas das prescrições mais severas da Espanha visigótica do século sétimo. Os escritos penitenciais apresentam um tratamento abrangente do pecado homossexual. Eles reconhecem as práticas femininas, distinguem entre diferentes atos e tentam adaptar as penitências à suposta gravidade da ofensa. Em geral, a Idade Média considerava a homossexualidade merecedora da atenção da igreja, que impunha penalidades espirituais, mas raramente entregava os ofensores às autoridades civis. Existe pouca reflexão sobre a moralidade do homossexualismo até a discussão dos “pecados contra a natureza” feita por Tomás de Aquino na Suma Teológica (1265-1273).

Entre os anos 1000 e 1500, à medida que se intensificou a urbanização da Europa, aumentaram as evidências de atividade homossexual. Mais ou menos a partir da segunda metade do século 12 surgiu uma hostilidade mais intensa contra esse tipo de conduta, tanto na literatura popular quanto em escritos teológicos e jurídicos.

Alguns estudiosos têm interpretado esse fato no contexto de manifestações mais amplas de intolerância contra certos grupos, como foi o caso das Cruzadas, do anti-semitismo e da Inquisição. Com o advento do Renascimento e mais tarde do Iluminismo, caracterizados pelo seu espírito de contestação dos valores tradicionais e de defesa da liberdade individual, a homossexualidade masculina adquiriu nova visibilidade e relativa aceitação. No entanto, as situações podiam variar grandemente de um país para outro. No século 19, enquanto na França havia tolerância sob o Código de Napoleão, o oposto ocorria na Inglaterra, onde as leis nessa área eram extremamente rigorosas.

3. Desdobramentos contemporâneos
O século 20 constituiu um dramático ponto de transição nessa história turbulenta. Nunca anteriormente tantos homossexuais haviam alcançado tamanho destaque na literatura, nas artes, na política e em outras esferas. Ao mesmo tempo, regimes ditatoriais através da Europa perseguiram duramente os membros desse grupo, como aconteceu na Alemanha nazista e nos países comunistas do Leste Europeu. Esses e outros fatores chamaram a atenção da opinião pública para os integrantes desse segmento social e despertaram crescente simpatia em relação aos mesmos. Por fim, o surgimento de um movimento homossexual organizado e militante nos anos 70 forçou a sociedade e as igrejas a se posicionarem de uma vez por todas quanto a essa questão, o que tem acontecido de modo intensamente conflitivo nas últimas décadas.

A homossexualidade é um tema que interessa vivamente aos cristãos e à igreja por várias razões: é uma situação que afeta profundamente a vida de indivíduos e famílias; é um fenômeno que adquire crescente aceitação e legitimidade na vida moderna, nos aspectos cultural, ético e jurídico; mas principalmente é uma questão explosiva para as próprias igrejas em três áreas – recepção de homossexuais como membros, ordenação de homossexuais ao ministério e união de homossexuais.

A questão também apresenta uma vertente teológica. Pensadores e igrejas de linha liberal tendem a encarar com maior simpatia a causa homossexual e suas reivindicações. Grupos conservadores, tanto católicos quanto protestantes, insistem na incompatibilidade entre a prática do homossexualismo e a ética cristã. Existe até mesmo, em alguns países, o chamado “movimento gay cristão”. Muitos cristãos entendem que a homossexualidade é injustificável, pecaminosa e muitas vezes resultante de uma opção deliberada, consciente. Outros acreditam que é uma doença ou um comportamento geneticamente condicionado. Em ambos os casos deveria ser buscada a cura e a restauração. O grande dilema para muitos cristãos é como, ao mesmo tempo, questionar a homossexualidade como um estilo de vida alternativo e natural, sem rejeitar e desrespeitar as pessoas envolvidas com tal situação.

Perguntas para reflexão:
1. As condenações do homossexualismo contidas na Bíblia são relativamente poucas, mas muito contundentes. O que se pode concluir disto?

2. A homossexualidade é um comportamento natural, mera opção e questão de preferência na área sexual, ou um comportamento condenável como a fé cristã tem entendido historicamente? Por quê?

3. Existe uma diferença entre ter impulsos homossexuais, isto é, sentir atração pelo mesmo sexo, e praticar o homossexualismo?

4. Do ponto de vista da ética cristã, o que se deve esperar de alguém que tenha inclinações homossexuais, mas quer seguir a Cristo?

5. Existe a possibilidade de defender a dignidade da pessoa homossexual sem ao mesmo tempo apoiar ou aprovar a prática do sexo entre iguais? Por quê?

Sugestões bibliográficas:
DAVIES, Bob; RENTZEL, Lori. Deixando o homossexualismo: uma nova liberdade para homens e mulheres. São Paulo: Mundo Cristão, 1997.
JONES, Peter. A ameaça pagã: velhas heresias para uma nova era. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
LUTZER, Erwin. Aprenda a viver bem com Deus e com seus impulsos sexuais: como se apropriar da graça e do poder de Deus para vencer as tentações de natureza sexual. Venda Nova, MG: Betânia, 1984.
SANTOS, Valdeci da Silva. Uma perspectiva cristã sobre a homossexualidade. São Paulo: Cultura Cristã, 2005.
STOTT, John. Grandes questões sobre sexo. Niterói, RJ: Vinde, 1993.
WHITE, R.E.O. Homossexualismo. Em ELWELL, Walter A. (Ed.). Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 1988-1990. Vol. II, p. 270-273.
DALLAS, Joe. A operação do erro: o movimento “gay cristão”. São Paulo: Cultura Cristã, 1998.
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Crescimento que procede de Deus

“... e não retendo a Cabeça, da qual todo o corpo, suprido e bem vinculado por suas juntas e ligamentos, cresce o crescimento que procede de Deus” (Cl 2.19).

O conceito de “crescimento” é muito amplo e por isso requer qualificações. Pode significar simplesmente “aumento” (crescimento da população, da violência, das taxas de juros, da produção agrícola), podendo ser tanto positivo quanto negativo. Também pode ter um sentido mais positivo de “desenvolvimento”, “aperfeiçoamento”, “progresso”. Uma boa definição é “realização de potencialidades”. No que diz respeito aos seres humanos, dois aspectos são importantes: crescimento comunitário e crescimento pessoal.

1. Comunitário
Na passagem de Colossenses, como em muitos outros textos bíblicos, dá-se ênfase ao crescimento do grupo, da comunidade cristã, aqui identificada como um “corpo”. O corpo é uma das imagens mais sugestivas aplicadas à igreja no Novo Testamento (outras imagens são rebanho, edifício, família, lavoura, etc.) . Assim como é natural, saudável e necessário que um corpo cresça, também isso deve acontecer com a igreja, com os cristãos. Duas coisas são importantes aqui: (a) em que aspectos se deve crescer e (b) como alcançar o verdadeiro crescimento.

1.1 Áreas de crescimento
Em Efésios 4.15, Paulo diz que devemos crescer “em tudo”. Mais especificamente, a carta aos Colossenses fala em crescer no “pleno conhecimento de Deus” (1.10) e em “ações de graça” (2.7). Já a primeira epístola aos Tessalonicenses fala sobre a importância de crescer no amor de uns para com os outros (3.12) e a conhecida passagem de 2 Pedro exorta os cristãos a crescerem “na graça e no conhecimento” do Senhor Jesus Cristo (3.18). Generalizando, podemos dizer que os cristãos devem crescer, progredir ou amadurecer em quatro áreas principais: adoração (devoção, culto), comunhão (amor, companheirismo), testemunho (evangelização, discipulado) e serviço (diaconia, solidariedade).

1.2 Meios de crescimento
Para que o crescimento verdadeiro ocorra, existem certas condições apontadas pelos textos bíblicos. (a) O crescimento deve vir de Deus, não do mero esforço, diligência ou criatividade humana. Daí, oração, fidelidade às Escrituras. Crítica ao movimento do “crescimento da igreja”. (b) O crescimento exige submissão e obediência à Cabeça do corpo, Cristo. Ef 4.15b: “... cresçamos em tudo naquele que é o Cabeça, Cristo.” O crescimento deve ser cristocêntrico, não antropocêntrico ou eclesiocêntrico. (c) O crescimento requer profunda união e coordenação entre os membros (Cl 2.19: “juntas e ligamentos”). Ef 4.16: “... de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento...” (d) O crescimento implica numa correta associação de verdade e amor: “... seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo... para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4.15a,16b).

2. Pessoal
Deus nos dotou de grandes potencialidades (capacidades, talentos) que precisam ser desenvolvidas, seja na área espiritual, intelectual ou social. Pesquisas tem demonstrado que a maioria das pessoas utiliza apenas 2 a 4% da sua capacidade. O nosso desenvolvimento e progresso pessoal é uma questão de boa mordomia dos dons que o Senhor nos tem concedido. Podemos obter grandes resultados se seguirmos alguns critérios:

2.1 Reconhecer o nosso potencial dado por Deus e assumir diante dele a responsabilidade de sermos tudo o que ele deseja de nós.

2.2 Estabelecer alvos concretos, elevados e realistas para as diferentes áreas de nossas vidas (estudos, profissão, relacionamentos, vida espiritual).

2.3 Planejar cuidadosamente como vamos alcançar esses alvos.

2.4 Ser disciplinados e perseverantes. Isso pode ser ilustrado pelo exemplo de Beethoven, que embora surdo, tornou-se um músico extraordinário graças à sua intensa disciplina e concentração para refinar as suas habilidades.

2.5 Não desistir diante dos primeiros obstáculos, não se esconder atrás de desculpas (se eu tivesse melhor aparência, se eu fosse mais talentoso, se eu viesse de uma família melhor). Havia um homem que era tão tímido que sempre sentava com a esposa no último banco da igreja e saía durante a oração final para não ter de falar com outras pessoas. Sentindo-se chamado para o ministério, começou a envolver-se com pessoas, grupos e atividades da igreja, tornando-se, finalmente, um bem sucedido plantador de igrejas.

2.6 Depender inteiramente da direção de Deus, em oração e obediência.
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O crescimento da igreja através dos séculos

A igreja cristã nasceu com uma vocação para crescer e se tornar universal. Já havia algumas intimações de tal universalidade no Antigo Testamento (Sl 67.2; 117.1; Is 2.3; 42.6; 66.19; Am 9.12; Zc 2.11; 8.22s), mas essa ênfase se tornou explícita nos ensinos de Jesus Cristo e dos apóstolos. Ao confiar a “grande comissão” aos seus seguidores, Jesus foi muito claro: eles deviam fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.19), ir por todo o mundo e pregar o evangelho a toda criatura (Mc 16.15), pregar arrependimento para remissão de pecados a todas as nações (Lc 24.47), ser suas testemunhas em Jerusalém, na Judéia e Samaria, e até aos confins da terra (At 1.8). No livro de Atos e nas epístolas, os apóstolos e os discípulos se mostram zelosos no cumprimento desse mandado (At 8.4; Rm 15.19). E o livro do Apocalipse apresenta grandiosas visões dos redimidos que procedem de todas as tribos, povos, línguas e nações (Ap 5.9; 7.9; 14.6).

É verdade que, nos primeiros tempos, houve um sério obstáculo a ser transposto. Muitos cristãos judeus queriam que os conversos gentios praticassem a lei de Moisés, isto é, se tornassem prosélitos do judaísmo, para poderem se tornar cristãos. Somente crer em Cristo não era suficiente. O “concílio de Jerusalém”, descrito em Atos 15, resolveu o problema de maneira sábia e equilibrada, dizendo que os cristãos gentios não precisavam seguir a lei mosaica, mas apenas se abster de determinadas práticas, visando manter a comunhão com os seus irmãos judeus. Isso permitiu que o movimento cristão deixasse de ser uma simples seita dentro do judaísmo e abraçasse plenamente a sua vocação universal. Inicialmente restrito aos judeus, cada vez mais o evangelho passou a ser pregado deliberadamente aos gentios, fato que ocorreu de maneira ampla, pela primeira vez, na cidade de Antioquia da Síria (At 11.19-21). A partir de então, esse processo se tornou irreversível.

1. Os primeiros séculos
Nos três primeiros séculos a igreja experimentou uma notável expansão geográfica. As regiões atingidas até o final do primeiro século formavam um semicírculo em torno da extremidade oriental do Mar Mediterrâneo, indo desde Cirene (Líbia), ao sul, até a Itália central, ao norte, e incluindo todas as regiões intermediárias – Egito, Palestina, Síria, Ásia Menor, Grécia e Macedônia. As maiores concentrações de comunidades cristãs estavam na Palestina, na Síria e na chamada Ásia, o oeste da Ásia Menor, em torno da cidade de Éfeso. No segundo e no terceiro séculos, as novas regiões alcançadas incluíam, no Oriente, a Mesopotâmia (Iraque), a Pérsia e a Armênia, e no Ocidente, toda a Península Balcânica ao sul do rio Danúbio, a região ao sul do rio Reno (Tchecoslováquia, Iugoslávia, Albânia), toda a Península Itálica, partes da Alemanha, França, Espanha e Lusitânia (Portugal) e o sul da Britânia (a futura Inglaterra). No norte da África, um novo e florescente centro cristão foi a Numídia (a atual Tunísia) e sua capital Cartago. É verdade que em muitos desses lugares a presença cristã era ainda pequena, mas crescia continuamente.

Dois fatos se destacam nesse período antigo. Essa foi a época das perseguições sofridas pela igreja nas mãos do Império Romano. As perseguições não foram generalizadas nem contínuas, mas causaram consideráveis danos à igreja em algumas de suas regiões mais prósperas, como a Ásia Menor, Itália, Egito e sul da Gália. Todavia, a repressão não teve o efeito esperado, porque quando a mesma cessava, o exemplo dos mártires e outros que sofreram por sua fé inspiravam os cristãos a um esforço renovado pela difusão das boas novas. Daí as célebres palavras do escritor Tertuliano (cerca do ano 200): “O sangue dos mártires é semente”. Ele também fez a seguinte afirmação dirigida aos pagãos: “Nós somos um grupo novo, mas já penetramos em todas as áreas da vida imperial – nas cidades, ilhas, vilas, mercados, e até mesmo no campo, nas tribos, no palácio, no senado e no tribunal. Somente deixamos para vocês os seus templos” (Apologia 37). Outro dado importante é que, à exceção de Paulo, nenhum missionário se destacou nos três primeiros séculos da vida da igreja. O cristianismo crescia espontaneamente através do testemunho de cristãos anônimos que no seu dia-a-dia compartilhavam informalmente a fé com seus parentes, amigos, vizinhos, conhecidos e colegas de trabalho.

2. A igreja imperial
Alguns fatos novos muito importantes aconteceram a partir do início do quarto século. Para começar, pela primeira vez um imperador romano, Constantino, aderiu à fé cristã, com a conseqüente legalização do cristianismo e o fim das perseguições (ano 313). No final do mesmo século, outro imperador, Teodósio, oficializou a Igreja Católica (ano 380), tornando-a a única religião admitida no império. Isso fez com que grandes levas de pagãos ingressassem na igreja, nem sempre movidos pelas motivações mais corretas. O fato é que, no quarto e no quinto séculos, o cristianismo tornou-se a religião majoritária na parte sul do Império Romano. Com as migrações dos chamados povos bárbaros para dentro dos limites do império, os mesmos foram progressivamente cristianizados, a começar dos visigodos. A primeira tribo teutônica a aceitar a fé católica, ou seja, trinitária, foi a dos francos, no final do quinto século.

O cristianismo sofreu um golpe terrível no sexto século com o advento do islamismo, que, em algumas regiões em torno do Mediterrâneo, deteve a marcha vitoriosa da igreja. Importantes regiões e centros cristãos de grande influência foram perdidos definitivamente, como foi o caso da Síria, Palestina, Mesopotâmia, Egito, Líbia e Numídia (Cartago). Mais tarde, os turcos, também convertidos ao islamismo, haveriam de causar grandes danos à igreja grega ou oriental, com a progressiva absorção da Ásia Menor e de certas partes dos Bálcãs, até a conquista da magnífica cidade cristã de Constantinopla, em 1453. Outras regiões cristãs ocupadas pelos muçulmanos por longo tempo foram eventualmente reconquistadas pelos cristãos, notadamente a Península Ibérica. As Cruzadas, grandes campanhas militares promovidas pelos cristãos europeus com a finalidade de recuperar os lugares sagrados do cristianismo que haviam caído em mãos maometanas, fizeram muito mais mal do que bem, deixando ressentimentos que perduram até o presente. Alguém se referiu a elas como a mais trágica distorção das missões cristãs em toda a história da igreja.

Em compensação, até o fim do primeiro milênio completou-se em grande parte a cristianização do norte e do leste da Europa (Ilhas Britânicas, Países Baixos, Escandinávia e nações eslavas, inclusive a Rússia). Com as perdas sofridas no Oriente Médio e no Norte da África, poderia parecer à primeira vista que o cristianismo se tornara uma religião exclusivamente européia. Porém, esse não foi o caso. Desde um período muito remoto, a fé cristã atingiu com maior ou menor intensidade vastas regiões da África ao sul do Saara, como o Sudão e a Etiópia, bem como importantes áreas do Oriente, como a Índia, a Mongólia e a China. Por outro lado, se não houve missionários de destaque além de Paulo nos primeiros séculos da igreja, o mesmo não se pode dizer dos séculos posteriores. Até hoje servem de inspiração para muitos cristãos os exemplos de Ulfilas (missionário aos godos), Martinho de Tours (França), Patrício (Irlanda), Columba (Escócia), Agostinho de Cantuária (Inglaterra), Wilibrordo (Frísia), Bonifácio (Alemanha), Anscar (Escandinávia), Cirilo e Metódio (povos eslavos) e tantos outros.

3. O período moderno
Uma fase nova e dinâmica da expansão do cristianismo ocorreu nos séculos 15 e 16, com as grandes navegações e descobrimentos efetuados por várias nações européias. Inicialmente, quem tirou maior proveito desses desdobramentos foi a Igreja Católica, que conquistou vastas regiões para a sua fé nas Américas, na África e na Ásia. Neste último continente, tornaram-se lendários os nomes de Francisco Xavier (Índia e Japão), Mateus Ricci (China) e Roberto de Nóbili (Índia). Todavia, essa expansão da fé cristã teve os seus percalços, porque os missionários vinham na esteira dos poderosos, dos conquistadores. Um caso particularmente inquietante foi o da América Latina, em que o processo de conquista e colonização, abençoado pela igreja, deixou um rastro de destruição entre as populações nativas. Somente se levantaram algumas poucas vozes de protesto, como foi o caso dos dominicanos Antonio de Montesinos, Francisco de Vitória, Antonio Valdivieso e especialmente Bartolomé de las Casas (1484-1566).

Depois de uma hesitação inicial, motivada por fatores conjunturais e teológicos, os protestantes também se envolveram gradativamente com missões estrangeiras, tendo se tornado tão ativos quanto os católicos. O auge das missões mundiais, principalmente no que diz respeito aos protestantes, foi o século 19, designado pelo historiador Kenneth Scott Latourette como “o grande século das missões”. Foi essa a primeira vez na longa história da igreja que o cristianismo se fez presente em todas as regiões do mundo, ainda que algumas áreas remotas dessas regiões tenham continuado sem a presença do evangelho. Alguns nomes bem conhecidos de missionários dessa época são David Brainerd, William Carey, Adoniran Judson, Hudson Taylor e John Paton. Novamente, ao lado de esforços missionários cristãos sérios e bem-intencionados, tanto católicos e ortodoxos quanto protestantes, houve aspectos menos recomendáveis, como a associação entre as missões e o colonialismo, a excessiva identificação entre o cristianismo e a cultura ocidental, e a competição entre diferentes grupos cristãos.

4. Observações finais
O crescimento da igreja pode ser encarado de diferentes perspectivas. De um lado, os cristãos têm demonstrado ao longo dos séculos a preocupação de divulgar a sua fé através do mundo, atendendo ao imperativo de Cristo. Esse crescimento teve aspectos apreciáveis, na medida em que a fé cristã veio enriquecer a vida de muitos povos, levando a indivíduos, famílias e sociedades dignidade, esperança e maneiras mais construtivas de encarar a vida. O crescimento da igreja muitas vezes teve um efeito benéfico e civilizador, trazendo consigo avanço cultural, educação, elevação do nível de vida e promoção humana em diversas áreas. Por outro lado, como foi apontado, esse crescimento muitas vezes esteve associado a atitudes questionadas pela própria ética cristã, como a violência, a ganância, o espírito de superioridade e o desrespeito pela integridade humana.

Outro fator relevante está relacionado com uma palavra utilizada várias vezes neste texto – cristianização. Nem sempre os povos alcançados foram realmente evangelizados de modo compassivo, respeitoso e profundo, e sim revestidos de um verniz de cristianismo, muitas vezes estimulando formas grosseiros de sincretismo religioso. É óbvio que o cristianismo desde o início transpôs barreiras culturais e nesse processo influenciou e sofreu influências. Isso tem a ver com o tema sempre tão atual da contextualização ou indigenização da fé. Ao expandir-se entre outras culturas, a igreja tem a responsabilidade de servir as pessoas e identificar-se com as elas em tudo aquilo que não seja claramente incompatível com os valores do evangelho.

Uma questão problemática é ilustrada pelos movimentos de “crescimento da igreja”, que se preocupam em atrair grandes números de pessoas, muitas vezes sem se importarem com os métodos usados, caindo na falácia dos resultados rápidos, do uso de técnicas de marketing religioso, das estratégias pragmatistas, da rendição às expectativas de uma sociedade embriagada com a prosperidade e o sucesso. O crescimento da igreja a qualquer custo nunca deve ser um objetivo da igreja. Cristo nunca exigiu que a sociedade inteira seja evangelizada ou esperou que todos se tornassem seus discípulos. O importante é que o testemunho de Cristo esteja presente entre todos o povos e que ele tenha seguidores, poucos ou muitos, em todas as culturas e grupos. Sempre que o cristianismo se torna majoritário em um dado povo, há uma tendência de declínio nos seus valores morais e espirituais.

O crescimento da igreja evangélica brasileira revelado pelos últimos censos, embora tenha trazido benefícios incalculáveis para muitas vidas e produza euforia em muitos corações, ainda está para mostrar os seus melhores frutos. O divisionismo e a proliferação de igrejas, as lideranças personalistas e autoritárias, o ufanismo triunfalista e alienante, a importação de formas esdrúxulas de teologia e culto, a atuação decepcionante de políticos evangélicos, a falta de responsabilidade social e cívica – todos esses óbices precisam ser superados para que possamos verdadeiramente nos orgulhar dos índices de crescimento das igrejas evangélicas do Brasil e para que estas sejam o sal e a luz de Cristo em nossa sociedade. Os ganhos têm sido consideráveis, e por isso somos gratos a Deus, mas a tarefa permanece inacabada.

Perguntas para reflexão:
1. Ao se evangelizar pessoas de uma outra cultura, o que não deve ser transmitido, visto não ser parte integral e essencial do evangelho?

2. Qual a diferença entre cristianização e evangelização?

3. É possível comunicar a mensagem cristã a outras pessoas sem desrespeitar a sua integridade humana, inclusive as suas convicções?

4. Por que razões certos grupos, como os muçulmanos, têm sido mais eficientes em seus esforços missionários do que os próprios cristãos?

5. Por que o mero crescimento numérico não é evidência de uma evangelização bíblica e genuína?

Sugestões bibliográficas:
BARRS, Jerram. A essência da evangelização. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.
GREEN, Michael. Evangelização na igreja primitiva. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2000.

GREENWAY, Roger. Ide e fazei discípulos: uma introdução às missões cristãs. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

NEILL, Stephen. História das missões. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1997.

PACKER, J. I. A evangelização e a soberania de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.SMITH, W.;

PORTELA, F. Solano. Fazendo a igreja crescer. São Paulo: Os Puritanos.
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Pastoreia as minhas ovelhas: o ministério cristão em perspectiva histórica


Nos últimos anos, os meios de comunicação têm noticiado com freqüência preocupante muitos casos de pastores e sacerdotes que têm sido infiéis no exercício de seu elevado encargo, envolvendo-se com delitos sexuais, desonestidade financeira e abuso de autoridade, entre outras situações. Muitas vezes, esses problemas têm trazido ruína para a vida pessoal dos envolvidos, vergonha para as suas congregações e descrédito para a igreja e para o evangelho. Essa triste realidade torna oportuna e necessária uma reflexão bíblica e histórica acerca do ministério cristão.

1. O ensinamento bíblico
A Escritura ensina que Deus é o supremo dirigente e orientador do seu povo. Algumas passagens significativas que apontam para isso são Gn 49.24; Sl 23.1-4; 80.1; 100.3 e Is 40.10-11. A mesma verdade é afirmada a respeito do Messias, o Cristo (ver Mq 5.4; Mt 2.6; Jo 10.11-16; Hb 13.20; 1 Pe 2.25; 5.4; Ap 7.17). Um exame desses textos mostrará que o termo mais usado é “pastor”: Deus ou Cristo é o supremo pastor do seu povo, estando incluídos nesse conceito as idéias de sustento, proteção, direção e disciplina, entre outras. Ao mesmo tempo, a Bíblia mostra que Deus (Cristo) houve por bem nomear representantes humanos para exercerem liderança e assistência espiritual no meio do seu povo. Na velha dispensação esses líderes foram principalmente os reis, os juízes, os sacerdotes e os profetas. Na nova dispensação, Deus entregou a sua igreja aos cuidados dos apóstolos e dos presbíteros ou bispos.

Assim como acontece com Deus Pai e Jesus Cristo, também no caso dos líderes humanos uma das figuras que melhor descrevem as suas funções e responsabilidades é a do pastoreio das ovelhas (ver Jo 21.15-17; At 20.28; Ef 4.11; 1 Pe 5.2). No Antigo Testamento, o grande protótipo do pastor é o rei Davi (2 Sm 5.2; Sl 78.70-72; Ez 34.23) e no Novo Testamento, o apóstolo Paulo (At 20.18-35; 2 Co 6.4-13; 1 Ts 2.1-12). Outro termo bíblico de grande relevância é “ministro” (diákonos, leitourgós, hyperétes), ou seja, aquele que serve. Os ministros são servos tanto de Deus quanto da igreja, o povo de Deus. Suas tarefas incluem pregar, alimentar, edificar, interceder, convencer, consolar, repreender, advertir e exortar os fiéis em sua vida cristã.

São freqüentes nas Escrituras as passagens que falam dos deveres e das qualificações dos pastores e ministros (Jr 3.15; At 6.4; Rm 12.7; 1 Co 4.1-2; 2 Co 4.1-10; 5.18-20; 1 Tm 3.1-7; 5.17-20; 2 Tm 4.5; Tt 1.5-9). Por outro lado, existem muitas advertências a respeito dos líderes relapsos e infiéis, “que se apascentam a si mesmos” e abandonam o rebanho do Senhor. Ver Jr 23.1-4; 50.6; Ez 34.1-31; Zc 11.5,17; 1 Pe 5.1-4. Segundo os preceitos bíblicos, o verdadeiro pastor é o líder revestido do Espírito Santo que amorosamente supervisiona, guia, ensina e adverte o povo de Deus.

2. Igreja antiga e medieval
A partir dos primeiros séculos da era cristã, ocorreram vários desdobramentos que dificultaram o fiel exercício do pastoreio cristão em moldes bíblicos. Entre eles podem ser citados o excesso de institucionalização da igreja, a crescente distinção entre clero e laicato, e a ênfase na vida monástica. Esses fenômenos criaram um progressivo distanciamento entre a hierarquia e o povo, fazendo com que os ministros tivessem dificuldade em desempenhar de modo eficaz as suas funções pastorais.

Todavia, as ações e os escritos de muitos líderes desse período dão testemunho da contínua relevância e necessidade do ofício pastoral. No segundo século, Policarpo de Esmirna, escrevendo aos filipenses, declarou: “Os presbíteros também devem ser compassivos, misericordiosos para com todos, reconduzindo aqueles que se desviam, visitando os enfermos, não negligenciando a viúva, o órfão e o pobre, mas sempre considerando o que é honroso aos olhos de Deus e dos homens, refreando toda ira, parcialidade e julgamento injusto, afastando-se de todo amor ao dinheiro, não pensando mal de alguém apressadamente, não sendo severo no juízo, sabendo que todos somos devedores ao pecado”. No terceiro século, Clemente de Alexandria e seu discípulo Orígenes também destacaram que os ministros são escolhidos para servir o Senhor, moderam as suas paixões, obedecem aos superiores, bem como ensinam e cuidam das ovelhas.

O grande bispo da igreja oriental João Crisóstomo (c. 347-407) não só foi o pregador mais eloqüente do seu tempo como destacou a importância da pregação no exercício do ministério cristão. Em um tratado acerca do sacerdócio, ele afirmou: “Há somente um método e meio de cura quando erramos, que é a poderosa aplicação da Palavra... com ela nós tanto despertamos a alma que dorme quanto a subjugamos quando se inflama; com ela cortamos os excessos, preenchemos as lacunas e realizamos todas as outras operações necessárias para a saúde da alma”.

Na igreja ocidental, o insigne Agostinho de Hipona (354-430) soube, como poucos, unir uma intensa reflexão teológica com um envolvimento prático no trabalho pastoral. Ele disse em uma de suas cartas: “Nesta vida, especialmente em nossos próprios dias, não há nada mais difícil, estafante e arriscado do que o ofício de bispo, sacerdote ou diácono; porém, nada é mais abençoado aos olhos de Deus, se o nosso serviço estiver de acordo com as ordens do nosso Capitão”.

Um marco importante na história da “cura de almas” foi o pontificado de Gregório Magno (590-604), cujo Livro de Regra Pastoral veio a ser um manual extremamente valioso para o clero secular durante toda a Idade Média. Todavia, continuaram a surgir obstáculos nessa tarefa: a evangelização superficial de grandes contingentes populacionais, em que um verniz de cristianismo recobria o paganismo subjacente; o aumento da riqueza e poder político da igreja, o que levou muitos papas, bispos e abades a negligenciarem o seu rebanho; as deficiências na formação dos sacerdotes, tantas vezes carentes de preparo ministerial e disciplina pessoal. Outros exemplos de preocupação pastoral nesse longo período são encontrados em grupos cristãos dissidentes como os donatistas, os valdenses e os albigenses, bem como entre os chamados pré-reformadores, notadamente John Wycliffe e Jan Hus. Este último disse em sua obra Sobre o Ofício Pastoral: “Existem duas coisas que pertencem ao status do pastor: a sua santidade e a integridade do seu ensino”.

3. A Reforma e o período moderno
A Reforma Protestante foi um movimento motivado em grande parte por preocupações pastorais, como ficou patente nos escritos e ações dos reformadores. Martinho Lutero (1483-1546) deu grande ênfase ao cuidado pastoral, que ele sempre relacionou diretamente com o ministério da Palavra. João Calvino (1509-1564) foi ainda além, dando imensa contribuição para o entendimento bíblico do ministério cristão. Ele devotou à igreja o quarto livro da sua Instituição da Religião Cristã, referindo-se a ela como a “mãe e mestra” dos fiéis, aquela que os gera através da pregação do evangelho e os educa na fé durante toda a sua vida. Em outro escrito, ele propôs para a igreja reformada de Genebra o quádruplo ofício de pastor, mestre, presbítero e diácono, destacando assim o valor da pregação, do ensino e do cuidado espiritual e material da comunidade cristã.

O reformador alemão Martin Bucer (1491-1551), sediado em Estrasburgo, foi chamado “o teólogo pastoral da Reforma”. Em sua obra O Reino de Cristo, ele identificou três deveres de um pastor: ensinar as Escrituras, ministrar os sacramentos e participar da disciplina eclesiástica. Um quarto dever era a assistência aos necessitados. Os anabatistas, em seu esforço de retornar aos padrões da igreja primitiva, também deram grande ênfase ao modelo pastoral espelhado no Novo Testamento, conforme exemplificado pelo trabalho e escritos de Menno Simons e seus colegas. Entre os fatores que contribuíram para essa revitalização da cura de almas nas igrejas da Reforma estava o retorno aos ensinos bíblicos sobre o ministério, a abolição das categorias de clero e leigos, a maior proximidade entre os líderes e os fiéis, e a vida coesa e participativa das comunidades evangélicas.

Dentre os movimentos subseqüentes, aquele que possivelmente produziu maiores frutos no âmbito pastoral foi o puritanismo inglês. Um nome de grande importância é o de Richard Baxter (1615-1691), cuja obra mais conhecida é O Pastor Reformado, escrito em 1656. O livro se fundamenta em Atos 20.28 para articular uma filosofia profundamente espiritual de ministério que aborda os labores, as motivações, as limitações e a dedicação dos pastores. Além de devotar-se zelosamente à pregação, todos os anos Baxter procurava encontrar-se pessoalmente com cada uma das 800 famílias da sua igreja para aconselhá-las e orar com elas, uma prática que transformou permanentemente a vidas dessas pessoas. Ele declarou: “Por amor a Cristo, e em prol da sua igreja e das almas imortais dos homens, eu rogo a todos os fiéis ministros de Cristo que se dediquem urgente e efetivamente a esse mister”.

No contexto intensamente bíblico das igrejas puritanas, o ensino e a prática do ministério genuíno se tornaram comuns, como ocorreu na obra de vultos como John Owen, Thomas Brooks, Richard Sibbes, Robert Bolton, Thomas Menton e Thomas Goodwin, entre outros. Nos Estados Unidos, a maior expressão dessa nobre tradição foi Jonathan Edwards (1703-1758), o notável pastor, teólogo e filósofo da Nova Inglaterra. Ele considerava uma grande bênção “o ministro que alegremente se dedica ao serviço do seu Senhor na obra do ministério, como uma obra na qual tem prazer, e também alegremente se une à sociedade dos santos sobre a qual foi colocado... e estes, por sua vez, alegremente o recebem como uma dádiva preciosa do seu Redentor glorificado”. Após a era puritana, destacaram-se por suas contribuições à teologia e à prática do ministério nomes como Charles Spurgeon, G. Campbell Morgan, Roland Allen, Benjamin Warfield e, mais recentemente, D. Martyn Lloyd-Jones, Jay Adams e John MacArthur, entre muitos outros.

Conclusão
Os dias em que vivemos são complexos e repletos de desafios. Nas áreas política, empresarial e institucional existe a expectativa de que os líderes sejam ao mesmo tempo íntegros, competentes e dinâmicos. Essa expectativa também se verifica no meio religioso, mas com um diferencial. Os ministros devem prestar contas de seus atos não somente aos seus paroquianos, mas principalmente àquele que os vocacionou e capacitou para o seu nobre ofício – o próprio Deus. Numa época em que o trabalho pastoral se torna uma atividade entre outras, em que os ministros correm o risco de serem meros “profissionais do púlpito”, em que motivações secundárias ou menores buscam a supremacia no coração dos pastores, vale a pena ouvir a exortação de Paulo ao seu colega mais jovem: “Cumpre cabalmente o teu ministério” (2 Tm 4.5).
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Visões de Jesus Cristo: teologia e arte atravéz da história

Os primeiros cristãos herdaram dos judeus uma grande hesitação em fazer representações materiais das realidades transcendentes. É verdade que o templo de Jerusalém era rico em suas preocupações estéticas e em seu conteúdo artístico. Nele foram utilizados os melhores e mais preciosos materiais disponíveis na época: madeiras, tecidos e metais nobres. Havia também belíssimas representações de elementos da natureza, tais como flores, frutos e animais. O Primeiro Livro dos Reis menciona entre os elementos decorativos do templo, colocíntidas, flores abertas, palmeiras, romãs, lírios, leões, bois e até mesmo querubins (6.18,23,29,32; 7.20,22,24-26,29,36,42). Todavia, quando se tratava do Ser Divino, eram vedadas todas e quaisquer representações materiais (Êx 20.4-5; Lv 26.1; Dt 4.15-18). Essas proibições foram observadas de modo particularmente rigoroso após a Diáspora e influenciaram a igreja primitiva, que se caracterizava por um culto simples e uma liturgia despojada, quase inteiramente isenta de símbolos materiais.

Nos primeiros séculos do cristianismo, a pobreza da maior parte dos cristãos, a situação de marginalidade do novo movimento e as limitações impostas pela sociedade e pelo estado foram alguns fatores, entre outros, que inibiram manifestações significativas de arte sacra especificamente cristã. Todavia, apesar das restrições bíblicas apontadas acima, faziam parte das convicções desses cristãos alguns elementos que no devido tempo iriam frutificar em ricas e variadas expressões artísticas. Um desses elementos era a doutrina da criação, o entendimento de que o mundo físico, com toda a sua beleza e complexidade, era obra das mãos de Deus e refletia os seus atributos de poder, sabedoria e bondade. Em particular, as Escrituras davam ênfase ao ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, e ao corpo humano, transformado em morada do Deus encarnado e redimido para uma vida de comunhão com o Criador. Além disso, a Bíblia estava repleta de histórias, milagres e símbolos vívidos que apelavam fortemente à imaginação e à sensibilidade, e mais cedo ou mais tarde encontrariam expressão em muitas formas visuais e artísticas.

1. Cristo no imaginário da igreja primitiva
A centralidade da pessoa de Jesus Cristo para a nova fé fez com que os cristãos desde uma época remota se defrontassem com a propriedade ou não de representá-lo visualmente. A realidade concreta e poderosa da encarnação legitimou para muitos cristãos a representação visual da pessoa do Redentor.

Inicialmente, essas representações foram apenas simbólicas e não tinham pretensões artísticas deliberadas. Tratava-se de desenhos simples, às vezes até rudimentares, na forma de afrescos e mosaicos feitos em residências particulares ou em catacumbas. Jesus Cristo podia ser representado visualmente por um peixe, por uma âncora ou pelas letras gregas “alfa” e “ômega”. O peixe era um símbolo especialmente atraente, não só em função das histórias dos evangelhos, mas porque a palavra equivalente em grego (ichthus) formava o acróstico de uma vibrante declaração de fé: “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”.

Com o passar do tempo, surgiram representações humanas mais explícitas, sendo que um dos temas mais freqüentes era a figura do Bom Pastor, sob a influência do Evangelho de João, capítulo 10. Curiosamente, até o início do quarto século praticamente não ocorreram representações artísticas da cruz e da crucificação. Os primeiros cristãos pareciam pouco inclinados a destacar visualmente a morte servil e degradante imposta ao seu Senhor, preferindo conceber a salvação nos termos suaves da amizade com Cristo, o Bom Pastor. Um belo exemplo pode ser encontrado num afresco da catacumba de Marcelino e Pedro, martirizados em Roma durante a perseguição movida pelo imperador Diocleciano (303-305).

2. O triunfalismo da igreja imperial
A partir do imperador Constantino (313), o cristianismo começou a influenciar diretamente a arte ocidental, em todas as suas expressões. O crescente poderio da igreja passou a ser traduzido em manifestações artísticas cada vez mais ricas e sofisticadas. Se nos primeiros séculos predominaram os temas da filantropia e da amizade com Cristo representados pela figura do Bom Pastor, a partir da união da igreja com o estado romano entrou em cena uma temática que pode ser designada como triunfal e gloriosa. Cristo passou a ser representado como o Senhor glorioso e o Juiz eterno que reina supremo à destra de Deus. Um exemplo sugestivo é uma pintura da catacumba de Comodila, ao sul de Roma, datada do quarto século, em que Cristo, tendo a cabeça circundada por um halo, está ladeado pelo alfa e o ômega, o princípio e o fim, simbolizando o seu poder eterno.

As controvérsias trinitárias e cristológicas do quarto e do quinto séculos, nas quais Jesus Cristo foi formalmente definido pelos primeiros concílios ecumênicos como consubstancial com o Pai, bem como plenamente divino e humano, fizeram com que, durante toda a Idade Média, essa ênfase triunfal se acentuasse nas diferentes manifestações da arte sacra. Obviamente, nesse aspecto um dos temas prediletos dos artistas foi a cena da ressurreição, da qual existem exemplos magníficos em muitas partes da Europa e do Oriente Médio. Um deles se encontra na igreja de Cora (hoje uma mesquita), em Constantinopla ou Istambul, em que um mural datado de mais ou menos 1320 mostra o Salvador ressurreto e vitorioso sobre a morte pisoteando os portões despedaçados do hades e ressuscitando Adão e Eva. A Catedral de Monreale, na Sicília, possui na abóbada acima do altar um estupendo mosaico bizantino de Cristo Pantokrátor (“governante de tudo”). Curiosamente, até mesmo algumas representações da crucificação podem ter esse tom triunfal, visto simbolizarem a vitória de Cristo sobre Satanás e o pecado.

Mesmo depois que as representações materiais de Cristo já estavam bem estabelecidas na arte sacra cristã, persistiram dúvidas na mente de muitas pessoas quando à propriedade das imagens do mesmo. Entre o final do século sétimo e meados do século nono, ocorreu no Império Bizantino (o império romano oriental ou grego) o célebre “movimento iconoclasta”, em que vários imperadores se opuseram tenazmente à veneração dessas imagens, considerando-a uma forma de idolatria. Isso resultou em grande parte de pressões externas: as imagens eram obstáculos na controvérsia com os monofisitas (que se concentravam na natureza divina de Cristo), com os maniqueístas (que consideravam má toda a matéria) e com os muçulmanos (que rejeitavam representações da forma humana). Depois de um conflito longo e por vezes violento, chegou-se a uma solução intermediária: seriam admissíveis somente quadros ou pinturas de Cristo, de Maria e dos santos (ícones), e não estátuas dos mesmos. A justificativa para tanto foi a encarnação – visto que Deus se tornou humano em Jesus Cristo, ele assumiu todas as características humanas, inclusive a visibilidade. Os ícones da igreja ortodoxa estão entre as mais belas manifestações da arte religiosa cristã.


3. Idade Média e Renascimento
A arte do Ocidente medieval foi a expressão de um sistema coerente de valores e de uma visão cristã da vida. Seu objetivo era indicar as realidades espirituais subjacentes ao mundo material e para isso os artistas da época utilizaram amplamente o simbolismo e a alegoria. Foi criado um sistema sofisticado de símbolos em que, por exemplo, o cordeiro representava Cristo. Num período em que muitas pessoas não sabiam ler, essas ricas e variadas representações visuais, repletas de temas e alusões bíblicos, serviam como a Bíblia dos incultos. No final da Idade Média a religião tornou-se mais pessoal e individual, e a arte sacra exprimiu essa mudança de rumo. O Cristo sofredor substituiu o juiz severo. Seu coração traspassado e sangrento tornou-se com maior freqüência um motivo inspirador dos artistas religiosos.


Ao lado dos temas da amizade e do triunfo, surgiu assim um terceiro motivo na arte cristã: a dor e o sofrimento. O alemão Matthias Grünewald pintou em 1515-1516 uma lancinante cena da crucificação para o altar-mor de Isenheim, refletindo a profunda devoção mística do movimento conhecido como “Devoção Moderna”. É interessante que, no século anterior, até mesmo uma cena da ressurreição transmitia uma sensação de dor. Num quadro pintado por Piero Della Francesca por volta de 1462-1464, Cristo ressuscita com sua bandeira de vitória, os soldados dormem a seus pés, as árvores florescem ao fundo, simbolizando a renovação do mundo, mas os olhos tristes e fixos do Senhor refletem toda a memória da dor da crucificação. Os artistas da Renascença criaram uma profusão de primorosas obras de arte relacionadas com Cristo que até hoje encantam e enlevam as pessoas.


4. Reforma e Contra-Reforma
O protestantismo, apesar do seu caráter de contestação do catolicismo e de suas ocasionais tendências iconoclásticas, também apresentou em sua fase inicial extraordinárias manifestações de arte religiosa, que encontraram sua expressão suprema na pintura. Alguns nomes famosos são os dos pintores alemães Albrecht Dürer, Lucas Cranach e Hans Holbein, e dos holandeses Jan Vermeer e Rembrandt van Rijn. É muito conhecido o auto-retrato de Dürer em que ele se identifica com Cristo como o Varão de Dores, porém de uma maneira serena, sem as angústias do imaginário místico medieval. Rembrandt foi o grande artista do discipulado cristão diário, representando a vida de Jesus de um modo que atrai o espectador para uma auto-identificação com o Senhor. Um belo exemplo é o seu “Cristo em Emaús”, cujo tema é o reconhecimento, o encontro face a face entre Cristo e o crente. Com isso, esses artistas davam expressão às suas novas convicções, “pregando” com a sua arte.


A Contra-Reforma, na sua luta pela reafirmação dos valores católicos diante da ameaça protestante, também teve uma exuberante e fecunda manifestação artística que foi o barroco. Esse movimento expressou-se principalmente nos templos com fachadas e interiores elaborados e decorados de maneira jamais vista anteriormente. O triunfalismo da Contra-Reforma é belamente exemplificado pelo quadro “A glorificação do nome de Jesus” (1672-1685), pintado no majestoso teto da igreja de Il Gesù por Baciccia, aluno de Bernini e o último grande pintor barroco de Roma. Todavia, com maior freqüência a arte barroca deu ênfase à exaltação de Maria, a rainha do céu.

Durante os séculos, quer nas catacumbas, nas pequenas capelas ou em grandiosas catedrais, seja em murais, afrescos, mosaicos, vitrais, telas, marfim, metal, tecido ou esculturas, os cristãos tem expressado as suas convicções a respeito de Cristo e a sua devoção a ele. É tão grande a intensidade de sentimentos evocada pelo fundador do cristianismo que até mesmo artistas não-cristãos têm produzido obras religiosas de grande valor estético e apelo místico. Essas manifestações artísticas correspondem a uma grande variedade de motivações, pessoais e sociais, teológicas e culturais, porém, intencionalmente ou não, sempre comunicam, com maior ou menor eficácia, a sublime declaração bíblica de que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14).


Perguntas para reflexão:
1. Por que razões muitos cristãos, especialmente protestantes, têm reservas quanto à arte sacra?

2. Dentro de que parâmetros há um lugar legítimo para a arte como expressão da fé cristã, inclusive as artes plásticas?

3. Por que motivos muitos cristãos hesitam em representar artisticamente a pessoa de Jesus Cristo?

4. Que argumentos teológicos legitimariam as representações visuais de Cristo, quer simbolicamente, quer realisticamente?

5. Existe uma diferença entre representar visualmente Deus Pai e Jesus Cristo? Qual é?


Sugestões bibliográficas:
DOWLEY, Tim (Org.). História do cristianismo: guia ilustrado. Venda Nova, Portugal: Bertrand Editora, 1995.
HORTON, Michael S. O cristão e a cultura. São Paulo: Cultura Cristã, 1998.
SCHAEFFER, Francis. Como viveremos: uma análise das características principais de nossa época em busca de soluções para os problemas desta virada de milênio. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
SEERVELD, C.G. Arte cristã. Em ELWELL, Walter A. (Ed.). Enciclopédia histórico-teológica da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 1988-1990. Vol. I, p. 120-125.
TUFANO, Douglas. História de Jesus através da arte. 2ª ed. São Paulo: Moderna, 2000.
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A síndrome de Adão – Por que devemos valorizar a história

Freqüentemente nos deparamos com pessoas que não gostam de história. Isso pode ser conseqüência de experiências desagradáveis em sala de aula, da dificuldade em guardar nomes e datas ou simplesmente uma questão de preferência. Certos indivíduos não sentem atração por história, assim como outros não apreciam inglês, química ou matemática.

Porém, uma coisa é não gostar de história como matéria, como área de estudo; outra coisa bem diferente e não gostar da história, ou seja, não valorizar a história, não considerá-la algo importante. Essa é uma tendência muito comum em nossos dias: o desprezo ou indiferença em relação à história, como se fosse algo dispensável, algo que só interessa a estudiosos ou diletantes.

Essa atitude é no mínimo lamentável e no máximo perigosa. Lamentável porque devido a esse desinteresse as pessoas deixam de conhecer muitas coisas valiosas que poderiam enriquecer as suas vidas e dar-lhes maior apreço por tantas realidades que as cercam. Perigosa porque a história é repleta de lições e advertências sobre coisas muito sérias, e quando as pessoas a ignoram, deixam de aprender com ela e correm o risco de repetir os seus erros.

Essa posição negativa em relação à história pode ser descrita como a “síndrome de Adão”. Sendo o primeiro ser humano, Adão não tinha história, não tinha um passado, uma herança social e cultural. Muitas pessoas se comportam como se fossem Adão, como se tudo tivesse começado com elas, como se nenhuma coisa importante tivesse acontecido antes do seu tempo. Esta lição tem o objetivo de mostrar que tal atitude não é saudável, por várias razões importantes.

1. História e identidade
Mesmo que não valorizem a história no sentido amplo, a maior parte dos seres humanos se preocupam com ela num âmbito mais restrito, pessoal. Por exemplo, quase todas as pessoas têm curiosidade em conhecer a sua árvore genealógica, em obter informações sobre a sua família, os seus antepassados. Hoje em dia existem firmas especializadas em fazer esse tipo de pesquisa para os interessados. Com freqüência, os meios de comunicação mostram pais procurando filhos e especialmente filhos procurando pais, buscando preencher lacunas importantes em suas vidas, em sua personalidade.

As pessoas em geral também gostam de relembrar os eventos importantes da sua vida – e mesmo aqueles não tão importantes, mas que as marcaram de algum modo. Essa é uma das razões porque temos álbuns de fotografias, escrevemos diários, contamos “casos” e comemoramos datas especiais. Isso resulta da consciência de que essas coisas são muito nossas e de que, se não as valorizarmos, ninguém mais o fará. Quanto mais idosas as pessoas se tornam, mais importantes se tornam essas recordações e reminiscências – essa história.
Qual a razão desses comportamentos? É o fato de que a história, mesmo que apenas pessoal e familiar, tem a ver com quem nós somos, com a nossa identidade como seres humanos. Quem não conhece a sua história, fica privado dos seus referenciais, das suas raízes. Por isso é tão triste a situação de indivíduos que, por causa de um acidente, trauma ou doença, perdem a memória e não sabem mais quem são. Em outros casos, um incêndio, inundação ou sinistro semelhante pode destruir documentos e objetos que marcaram a trajetória de uma vida, de uma família, com grande perda para a auto-imagem das pessoas envolvidas.

É por esse motivo que, de acordo com a legislação brasileira, existem certos bens muito pessoais que nunca podem ser retirados de alguém a título de pagamento de dívida, como é o caso de cartas, fotos e outros objetos de valor afetivo. Essas coisas têm um significado para essas pessoas que não pode ser avaliado economicamente, por serem parte da sua trajetória de vida.

O que muitas pessoas deixam de perceber é que não só os eventos da nossa vida pessoal contribuem para a nossa identidade, mas também os acontecimentos mais amplos da sociedade e do mundo ao nosso redor. Não só os indivíduos e famílias têm uma identidade, mas os grupos, a coletividade e nações inteiras. Talvez seja essa uma das principais causas da crise de identidade que vive o Brasil contemporâneo – a incapacidade de encarar de frente a nossa história e aprender com os seus acertos e desacertos.

Uma apreciação da nossa história irá nos ajudar a entender os aspectos positivos do nosso patrimônio cultural. Por um lado, iremos saber de onde veio a mistura de raças, o jeito alegre de ser, a musicalidade, o folclore, a riqueza do idioma e da literatura, a afetividade e tantas outras características positivas do nosso caráter nacional. Por outro lado, compreenderemos melhor como surgiram o individualismo, o desprezo pela lei, a corrupção na vida pública e as desigualdades sociais que tanto nos envergonham e prejudicam. Compreendendo os mecanismos que deram origem a esses problemas, estaremos mais capacitados para corrigi-los.

2. Uma fé histórica
Os cristãos têm fortíssimas razões adicionais para valorizar a história – razões de natureza bíblica e teológica. A Escritura nos mostra que o povo de Deus, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, tem uma profunda ligação com a história. Mais ainda: Deus e a sua salvação estão intimamente ligados à história humana.

A fé judaico-cristã afirma que o Ser Divino é ao mesmo tempo transcendente e imanente. Como um Ser transcendente, Deus está acima e além do tempo e do espaço, sendo, portanto, aistórico, ou seja, não sujeito aos condicionamentos da história. Ele é infinito, eterno e imutável, ao contrário de tudo o mais que existe, do universo criado.

Ao mesmo tempo, Deus é imanente, isto é, relaciona-se de perto com a sua criação, atua diretamente no mundo em atividades de revelação, providência e redenção. Como diz o título original de um livro de Francis Schaeffer, “ele está presente e não está calado” (publicado pela Editora Cultura Cristã com o título O Deus que se revela).

Deus se relaciona com a história de duas maneiras principais. Em primeiro lugar, em sua soberania ele dirige a história, ainda que muitas vezes o faça de maneira incompreensível e insondável para nós. O cristianismo tem uma concepção linear da história, como algo que tem um princípio, um meio e um fim. Em cada uma dessas etapas, Deus é o personagem central. O grande teólogo e bispo da antiguidade Agostinho de Hipona foi o primeiro a elaborar uma filosofia cristã da história em sua obra A cidade de Deus, na qual analisa a história do mundo desde a criação até a consumação, à luz da obra da redenção.

Todavia, em um sentido ainda mais rico e sublime, Deus se relaciona com a história entrando ele mesmo, pessoalmente, nessa história através de Jesus Cristo, seu Filho. Por isso a verdade da encarnação é tão importante para os cristãos. Crer na encarnação significa crer que o Deus transcendente e eterno literalmente veio ao mundo e se identificou profundamente com a sua criação, assumindo uma natureza humana integral. Ele o fez com o objetivo de restaurar o seu relacionamento com as suas criaturas. Ninguém expressou isso de modo tão claro e direto quanto o apóstolo Paulo, quando disse: “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo” (2Co 5.19).

A própria Bíblia é um livro de histórias e da grande história. No Antigo Testamento, os judeus foram instruídos a lembrar continuamente os grandes eventos libertadores de Deus, através de cerimônias e festividades, bem como ensiná-los de contínuo a seus filhos (ver Êx 12.11-14,24-27; 13.6-9,14-16; Lv 23.41-43; Dt 6.6-9,20-23). Isso era fundamental para a preservação da sua identidade religiosa e nacional e para que nunca deixassem de ser gratos a Deus por suas bênçãos (ver os Salmos 105 e 136).

Os livros do Novo Testamento foram escritos para que a história de Jesus fosse preservada e compartilhada com as próximas gerações. Nos evangelhos e nas epístolas, os apóstolos revelam a sua convicção de que essas informações eram fundamentais para a fé e a vida dos cristãos (Lc 1.1-4; Jo 20.30-31; 1Co 15.1-4). Jesus quis que o ato central da sua obra redentora recebesse especial atenção e por isso instituiu a ordenança da Ceia, recomendando: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22.19; 1Co 11.24-25).

Ao contrário de muitas religiões, cujas convicções se baseiam em mitos supramundanos e supratemporais, a fé bíblica insiste que os seus grandes atos redentores foram realizados por Deus em eventos históricos concretos com o êxodo, a encarnação, a cruz e a ressurreição. Ora, se a história é tão importante assim para Deus, certamente o deve ser para os seus filhos. Sendo o cristianismo uma religião profundamente histórica, os cristãos, se quiserem ser coerentes com a sua fé, devem valorizar intensamente a história, palco da atuação soberana e graciosa de Deus em ações providenciais e redentoras.

3. O exemplo dos reformadores
Os reformadores protestantes do século 16 se sentiram tentados pela síndrome de Adão. Ao romperem com a sua antiga igreja – por entenderem que ela havia se afastado do ensino das Escrituras em muitos pontos importantes –, eles correram o risco de deixar tudo para trás, inclusive certos elementos válidos e bons que deviam ser preservados.

Alguns grupos protestantes cometeram esse erro, principalmente entre os chamados “radicais”, “fanáticos” ou “espiritualistas” (apelidos dados aos anabatistas extremados). Lutero questionou muitas coisas da igreja medieval, mas manteve determinados elementos doutrinários e litúrgicos da antiga tradição. Ulrico Zuínglio, o reformador de Zurique, na Suíça, foi mais longe que Lutero em sua obra de retorno às Escrituras e reforma da igreja. Por isso, os seus seguidores ficaram conhecidos como “reformados”.

Pois bem, em Zurique, alguns simpatizantes iniciais de Zuínglio chegaram à conclusão de que ele não estava sendo profundo o suficiente em sua obra de reforma, pois ainda mantinha certas práticas “papistas” como o batismo por aspersão e o batismo de crianças. Assim sendo, os anabatistas passaram a atacar Zuínglio e seu trabalho de reforma, dizendo que queriam viver como nos dias do Novo Testamento, conforme se vê no livro de Atos dos Apóstolos.

Zuínglio e depois dele Calvino disseram não a essa atitude. Eles sabiam que o cristianismo e a igreja não haviam começado com eles, mas que eram herdeiros de 1.500 anos de história. Não era possível voltar do século 16 diretamente para o século 1º como se nada tivesse acontecido ao longo desse período. Dizer que entre o final da era apostólica e a Reforma não havia ocorrido nada de bom seria o mesmo que dizer que Deus ficou mais de um milênio sem um povo no mundo, que o Espírito Santo se manteve ausente da igreja, que a promessa de Jesus – “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” – ficou inoperante.

Portanto, ao mesmo tempo em que os reformadores foram implacáveis em condenar e abandonar tudo o que, no seu entender, conflitava com a Palavra de Deus, eles foram sábios o bastante em manter muitos elementos que consideraram não só válidos, mas um patrimônio precioso a ser preservado e cultivado pelos cristãos – nas áreas da reflexão teológica, da interpretação bíblica, da elaboração litúrgica, da pregação, das missões transculturais e assim por diante.

Citemos alguns exemplos concretos no caso da tradição reformada. João Calvino e os seus simpatizantes tinham grande apreço pelas declarações de fé da igreja antiga, como o Credo dos Apóstolos, que é analisado em muitos documentos doutrinários e confessionais da fé reformada. Eles também nutriam grande admiração pelas formulações teológicas sobre Deus, a Trindade e a pessoa de Cristo feitas pelos grandes concílios dos séculos 4º e 5º (Nicéia, Constantinopla, Calcedônia). Além disso, o reformador de Genebra citou abundantemente em seus escritos autores antigos e medievais como Agostinho, João Crisóstomo, Bernardo de Claraval e outros, reconhecendo as suas valiosas contribuições nas áreas da doutrina e da espiritualidade cristã.

Na verdade, o débito dos reformadores para com Agostinho, que viveu no 5º século, é imenso. Em áreas como a antropologia (doutrina do ser humano), soteriologia (salvação) e eclesiologia (igreja) a teologia da Reforma inspirou-se diretamente e profundamente nas reflexões do bispo de Hipona, que viveu muito tempo depois dos apóstolos, mas foi uma testemunha fiel de Cristo em sua geração.

4. O que devemos fazer
As considerações acima nos mostram a importância da história bíblica, da história da igreja e até mesmo da história secular. Portanto, quais devem ser as nossas atitudes diante disso? Em primeiro lugar, precisamos recordar continuamente a história em busca de ensinos relevantes para a nossa vida. Essa é uma ênfase encontrada com freqüência nas páginas da Escritura. A recordação pode ter como objeto episódios negativos, quer na vida pessoal (Dt 24.9; Lc 17.32) ou coletiva (Salmos 78 e 106), servindo assim de solene advertência. Mais comumente, essa recordação é positiva, constituindo-se em motivo de humildade, aprendizado, gratidão e louvor (Dt 8.1-20; 15.15; 16.12; Ef 2.1-7; Tt 3.3-7).

Em segundo lugar, deve-se ter em mente que para recordar a história é preciso conhecê-la. E só podemos conhecer lendo, pesquisando e estudando. Isso se aplica tanto à história bíblica quanto à história da igreja e da sociedade. Atualmente as editoras evangélicas brasileiras disponibilizam uma grande quantidade de obras valiosas nessa área, de autores nacionais e estrangeiros. Essas obras variam no seu grau de complexidade e abrangência, estando ao alcance de pessoas com diferentes graus de instrução.

Em terceiro lugar, é preciso considerar que não se deve conhecer e valorizar a história por um simples saudosismo e apego ao passado. A história pode nos ajudar a viver melhor o presente e a construir um futuro mais promissor. Uma coisa de que nunca se deve esquecer é o fato de que todos nós somos parte do grande fluxo da história e de que continuamos a escrevê-la no presente, com as nossas ações, com a nossa vida, sob a orientação de Deus.

A história nos permite acreditar na capacidade humana para o bem, para a nobreza, para a virtude, mas também nos alerta para não subestimarmos a horrível potencialidade humana para a crueldade e para a vileza, como os acontecimentos hodiernos nos revelam a cada momento. O mesmo século 20 que viu tantas conquistas e realizações notáveis nos campos da arte, da ciência e da tecnologia, também testemunhou a barbárie do genocídio, a loucura do terrorismo e a insensatez da devastação ambiental.

Conclusão
É importante que nessa área, como em todas as outras, nós tenhamos uma cosmovisão ou perspectiva bíblica, cristã e reformada. Sim, porque existem na atualidade as mais diferentes concepções e interpretações da história – evolucionistas, niilistas, marxistas, fatalistas e outras.

Como cristãos, cremos que a história tem um sentido e um propósito. Vivendo num mundo de pecado e alienação, nem sempre podemos discernir esse sentido e propósito em cada evento. Mas confiamos que Deus está no controle último de todas as coisas. Ele nos convida para sermos, não expectadores passivos, mas co-participantes na construção do seu reino de justiça e paz. Como alguém alertou, “para que o mal triunfe, basta que os homens de bem não façam nada”.

Tenhamos uma visão equilibrada da história e do nosso lugar nela. Conforme acentuou Agostinho, no centro da história humana, com suas inquietações e perplexidades, está a cruz de Cristo como sinal de contradição e de esperança. Remidos pelo Senhor, iluminados por seu Espírito e sustentados por sua graça, façamos uso consciencioso das nossas capacidades e recursos, dando assim a nossa contribuição, ainda que modesta, para a prosperidade e o bem-estar da igreja e do mundo.
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